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terça-feira, 31 de março de 2009

A Vida Como Farsa


Valdemar Augusto Angerami - Camon




Se você o tempo todo mostra ao mundo que tudo,
absolutamente tudo, sempre está bem...
que as coisas nunca te abalam ou te preocupam...
Saiba que o corpo irá te desmentir...
As enxaquecas, gastrites, inflamações na garganta,
entre outras manifestações,
são severos sinas da farsa
que você está fazendo da própria vida.
Não adianta tentar colocar um sorriso no rosto
se o coração está sangrando...
a alma não tolera essa farsa...
o corpo irá gritar com os mais variados sintomas...
o mioma, o cálculo renal, a taquicardia, infecção urinária
sempre são sinais de alerta...
Escute o teu coração e veja sua palpitação...
De nada adianta tentar sorrir
se não houver alegria na alma...
tente resgatar o que te magoa,
tente superar os percalços,
mas não faça da vida uma farsa...
as conseqüências sempre são severas...
não veja nas complicações cardio vasculares
e nas diversas formas de bronquite
apenas meros sintomas físicos...
elas também mostram nossa fragilidade
diante dos mais diferentes enfrentamentos...
Não adianta calar se o coração quer gritar...
O grito contido irá doer nas entranhas da alma
e irá machucar as partes do corpo mais sensíveis a tais agressões...
e também não grite quando o coração quer silêncio...
o espírito se desestrutura diante de barulhos indesejáveis...
não engula dissabores em nome
de que apenas grandes questões devem te preocupar...
Não são apenas os grandes dissabores que envenenam a alma
e dilaceram o corpo e o coração...
também são as pequenas coisinhas que se somam
e tornam insuportável o fardo da própria vida...
não faça da tua vida uma farsa...
É fatal negar os desígnios do corpo...
a enxaqueca é sinal de que a tua tensão excedeu os limites...
A gastrite, esofagite, e a sinusite mostram
que a tua estrutura emocional sucumbiu diante da razão...
Deixe a emoção se mostrar...
diante da depressão assuma estar deprimido...
diante da angústia, viva intensamente o estar angustiado...
tente reverter esse quadro agindo em sentido contrário...
mas não com falso sorriso e titubeios...
Diante das lágrimas assuma a intensidade do teu choro...
nunca tente negar o que te faz sucumbir...
a paz e a serenidade são dádivas do espírito tranqüilo...
nunca faça da própria vida uma farsa.
Somos humanos e podemos aceitar o fato
de que sucumbimos diante dos problemas
que afetam nossa humanidade.
As tuas disfunções hormonais e de tiróide
são indícios de que você está indo além dos padecimentos
que o corpo e a alma suportam...
A vida não tolera farsas...
podemos enganar todos, mas nunca a nós mesmos...
a vida quando se torna uma farsa
se torna um fardo insuportável...
não deixe sua vida se transformar em uma grande farsa..
recolha tua dor e sorria apenas quando o coração estiver em festa....
Não faça da tua vida uma farsa...

segunda-feira, 30 de março de 2009

PORQUE ESCREVO SOBRE RELIGIÃO




RUBEM ALVES

UMA LEITORA ME perguntou: "Por que é que você, professor universitário, escritor, gasta tanto tempo com essas coisas da religião?" Ela pensava que eu, havendo lido Marx, Freud e Feuerbach, deveria dar um uso mais científico ao meu tempo e ao meu pensamento.
Minha resposta é simples: gasto o meu tempo com os sonhos das religiões porque, como disse Shakespeare, nós somos feitos de sonhos. A história é feita com sonhos. Todas as coisas materiais que fazem a vida da civilização são feitas com sonhos. Escrevo sobre a religião num esforço para acordar os que dormem.

Lembro-me da propaganda de um carro que vi, faz muitos anos, numa revista americana: era um conversível vermelho, sem capota, parado num bosque. Não há ninguém no carro, e as duas portas estão abertas. A sedução - o motivo comercial para seduzir o leitor a comprar - se encontra precisamente naquilo que não se encontra na cena, mas apenas na imaginação. Se as duas portas estivessem fechadas, a mensagem seria simplesmente o carro vermelho sem capota. Se só a porta do motorista estivesse aberta, a imaginação completaria a cena: ele deve estar atrás de uma árvore fazendo xixi.

Mas as duas portas foram deixadas abertas. As pessoas que ocupavam o carro estavam com pressa. A imaginação não tem alternativas, as imagens se impõem: um homem e uma mulher. Onde estarão eles? Fazendo o que? Bem dizia Bachelard que aquilo que se vê não pode se comparar com aquilo que não se vê. Quem bolou essa propaganda genial sabia que a alma é feita de sonhos. Veblen, economista, também conhecia a alma humana e por isso declarou que não compramos "utilidades", coisas práticas, materiais. Compramos símbolos.

Isso que vou contar aconteceu no tempo em que a televisão fazia propaganda de cigarros. Cena silenciosa, sem uma única palavra: um bosque de pinheiros... Eu amo a natureza, amo os pinheiros, o perfume da sua resina. Os pinheiros cedem lugar a um regato de águas frias e cristalinas que corre sobre pedras. Eu também amo os regatos de águas frias e cristalinas. Uma campina verde florida. Minha imaginação sugeriu logo que deveria ser capim gordura com o seu perfume único o que me levou para a minha infância em Minas. Cavalos selvagens em galope, pelo negro brilhante.

Estava certo o presidente João Batista Figueiredo quando disse que o cheiro dos cavalos suados era melhor que o cheiro de gente suada. Leonardo da Vinci declarou que os cavalos são os animais mais belos depois dos homens. Cheguei a imaginar que seria possível produzir um perfume másculo extraído do suor dos cavalos. Nenhuma mulher o resistiria!

Aí entra o rosto de um vaqueiro, maxilar de noventa graus, barba de um dia por fazer - homem que é homem não se barbeia todo dia, isso é coisa de executivo -, com um cigarro entre os dedos, estilo Humphrey Bogart e as palavras, as únicas palavras: "Venha para o mundo de Marlboro!" Não, ninguém está falando em fumar! Está se falando de um mundo de pinheiros, regatos, campinas, cavalos - tudo isso faz parte do sonho que mora nas espirais de fumaça da imaginação...

O conversível vermelho com as duas portas abertas e o mundo de Marlboro pertencem ao mundo das fantasias religiosas. São sacramentos. Porque sacramentos são todas as coisas feitas com uma mistura de matéria e símbolos. Você entende agora porque eu penso e escrevo sobre religião?

sábado, 28 de março de 2009

SE EU FOSSE UM PADRE...




Em tempos de excomunhões e punições pelos homens da igreja, nada como relembrar a sabedoria e a sutileza do poeta Mario Quintana:






Se eu fosse um padre, eu, nos meus sermões,
não falaria em Deus nem no Pecado
- muito menos no Anjo Rebelado
e os encantos das suas seduções,
não citaria santos e profetas:
nada das suas celestiais promessas
ou das suas terríveis maldições...
Se eu fosse um padre eu citaria os poetas.
Rezaria seus versos, os mais belos,
desses que desde a infância me embalaram
e quem me dera que alguns fossem meus!
Porque a poesia purifica a alma...
Um belo poema - ainda que de Deus se aparte -
um belo poema sempre leva a Deus!

sexta-feira, 27 de março de 2009

AS DUAS CANÇÕES DO HOMEM E OS SONS SECRETOS DA CÍTARA INDIANA


Rubem Alves

Bom lembrar, a quem não sabe, que a cítara é composta de duas camadas de cordas superpostas, uma sobre a outra, muito próximas, sem nunca se tocarem. A camada de cima é sensibilizada pelo músico e a de baixo não pode nunca ser tocada pelos dedos. Quem pouco entende dos segredos sonoros pode perguntar-se por que razão um instrumento musical tem cordas que não são tocadas. A beleza desse mistério está justamente na harmonia que enlaça as duas camadas. Os dedos não tocam a de baixo para que suas cordas possam vibrar pela magia de uma coisa muito mais sutil que os dedos. Tangidas pelos sons que brotam das primeiras, elas reverberam e fazem nascer uma outra música, diversa daquela que o artista produziu. Eis o segredo. Eis a sensibilidade.

Olhemos agora para nós. Quem sabe sejamos cítaras humanas, que vivem dentro de um encanto chamado vida, provocado pelo carinho criador de Deus. Lá dentro, no fundo de nossa essência, estão as segundas cordas de uma única verdade, que os dedos nunca tocam, mas que fazem ouvir uma outra voz, a vibrar pelos escaninhos do silêncio...

Vem de lá uma canção imortal, jamais tocada, mas que, se ouvida, pode dizer muito de nós.
Talvez seja esta a melodia diferente que os bons médiuns ouvem. Aqueles que lêem com amor o não-dito das palavras humanas, separando a mentira da verdade, o joio do trigo, e escolhendo o bem. Talvez seja, essa música oculta, a melhor definição de amizade. Afinal, o que um amigo faz senão educar-se para escutar nosso silêncio, que às vezes busca um abraço, um momento de atenção para aplacar sua melancolia?

Um amigo é também algo mais. É aquele que faz do seu sossego um recanto confiável, onde o outro pode guardar seus segredos e não ter medo de perdê-los. Um amigo é aquele onde nossa segunda pauta encontra eco, porque sabe que no âmbito da amizade a solidão é um convite ao recolhimento, para que sejamos ouvidos, para que possamos reverberar. Nos braços de um amigo, nossa solidão se dilui no suave aroma da partilha.

Você, a quem muitos consideram verdadeiro irmão, pode treinar os ouvidos do sentimento para escutar uma nova melodia. Preste, porém, menos atenção no que as pessoas irão tocar e mais nos sons daquelas cordas que nunca serão tangidas. Aproveite, também para apreciar a beleza da música que brota de todo lugar. Aí escutará a segunda canção de Deus, convidando-o a que habite uma realidade nova: a de ser, finalmente, um bom e melhor amigo, que com muito amor, aprendeu a chamar os outros para fora da solidão.

quinta-feira, 26 de março de 2009

QUALIDADE DE VIDA COMEÇA NA MENTE


Vanessa Mazza Furquim


Qualidade de vida tem sido um dos temas mais falados atualmente e cresce na mesma proporção em que as tensões políticas e econômicas se intensificam em diversas partes do mundo.

É evidente que está se criando um grande abismo entre aqueles que estão cansados dos rótulos do mundo moderno, em que nossa vida é fadada a um determinismo de trabalho contínuo e sem descanso, com hábitos sedentários, má alimentação, estresse, violência entre as crianças, divórcios e falta de amor, harmonia e compreensão em geral e entre aqueles que não conseguem se libertar deles.

Essas últimas pessoas estão mergulhadas dentro de uma esfera onde não há companheirismo, nem senso de comunidade. Cada um se isola em sua bolha de sofrimento, carregando um fardo de dor, solidão e medo do futuro. As preocupações esgotam toda a vitalidade e criatividade, deixando estas pessoas meras sombras de si mesmas.

Elas assistem aos telejornais com um sentimento de catástrofe e grande decepção. Parece que nada mais vale a pena, que o trabalho não compensa e que a única certeza é a morte. Possivelmente por causa disso, muitos usaram seu livre-arbítrio para dar um basta a esses hábitos viciosos, tomando a decisão de trazer às suas vidas mais qualidade. E o que foi feito?

As pessoas passaram a praticar yoga, a ouvir os ensinamentos orientais, a procurar terapias, florais, oráculos, consultorias esotéricas de todos os tipos para tentarem entender a si mesmas. Além disso, entraram em academias, aboliram a carne, introduziram a soja na alimentação, assim como os produtos light. Outros se engajaram em projetos ecológicos, fazem a coleta seletiva, adquirindo apenas produtos que não agridam a natureza, entre outros tantos exemplos.

Obviamente que todas essas atividades são de suma importância para a humanidade, mas apenas essas atividades não resolvem um problema intrínseco: a nossa programação mental. Apesar de procurarmos a qualidade de vida com tanto empenho, muitas vezes sente-se que algo está faltando, que não está sendo suficiente.

Onde está aquele sentimento de serenidade que aqueles monjes experimentam? Onde está o equilíbrio frente às adversidades? A fortaleza de caráter? E, principalmente, onde está a prosperidade dos que praticam o bem e que deveriam ser os verdadeiros detentores dos bens da Terra, de modo a distribuí-los com mais sabedoria e amor?

A resposta está na mente. É lá que tudo começa. É a fonte de toda a criação. Nossos pensamentos, quando direcionados, têm uma força imensa e é uma pena que perdemos tanto tempo, direcionando pensamentos negativos de auto-invalidação, de raiva, de miséria e de medo. Portanto, vamos mudar o teor dos nossos pensamentos.

Assim, todas as atividades físicas voltadas para a qualidade de vida terão um impacto muito maior e duradouro em nossas vidas.

Foto Vera / Ilha Grande, Angra dos Reis