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quinta-feira, 5 de janeiro de 2017
CAIM E O HOMEM CORDIAL
Por Alexandre Coslei em 26/12/2016 na edição 929
Atravessei a infância e a adolescência à sombra do Ato Institucional nº 5, o hiato da ditadura que alienou uma geração de jovens de todos os ideais políticos, das liberdades e do direito à expressão. Por uma dessas ironias da vida, cresci em frente a uma grande fábrica na Tijuca (a Brahma), que ficava ao lado do 1º Batalhão da Polícia do Exército, o temível DOI-Codi. Às sete horas da manhã, o apito da chaminé da fábrica me acordava, hora de ir para o colégio. No caminho, eu esbarrava com filas de operários iniciando a jornada de trabalho. Ao mesmo tempo, caminhava debaixo dos olhos soturnos de soldados em vigília. Formei minha consciência entre o proletariado e a repressão.
Da janela da sala de aula, me perdia em devaneios observando caixas de cerveja subirem e descerem pelas esteiras, acompanhadas pelo movimento frenético dos trabalhadores. Em breves intervalos, eu alternava os olhos para observar a calmaria bucólica do quartel, onde nada parecia acontecer e onde todo o mal acontecia nos subterrâneos que minha visão ainda inocente não alcançava.
Ao retornar da escola, percorria o mesmo caminho repleto de macacões brancos dos descontraídos operários que descansavam do almoço cochilando sob as amendoeiras; acima da minha cabeça, as sisudas fardas verdes do exército continuavam a vigiar a paisagem. A mesma rotina vivida por anos, num universo que me parecia simples, seguro e previsível. Em casa ou no colégio, neste período, não ocorriam conversas sobre política. Política e eleições são palavras que só ouvi como adulto. Na rua em que eu morava residiam também muitos militares de alta patente. Pouco os via e eles pouco interagiam com o dia-a-dia da comunidade.
Catecismo, Moral e Cívica e OSPB soavam como elementos obrigatórios na educação de uma criança da classe média tijucana. Cumpri todo o processo que visava a domar e programar as mentes que sustentariam o país do futuro. A existência refletia uma bolha de amenidades. Porém, alguns sinais já revelavam a alma da terra em que eu habitava.
Em 1977, durante uma aula de ciências, o professor flagrou um aluno negro conversando e rindo, perguntou qual assunto o distraía e o menino respondeu que comentava sobre o seriado do Batman. Então, o mesmo professor exigiu que o menino negro subisse ao tablado, cortou uma pequena máscara num papel cor de rosa e fez com que o garoto a colocasse e sorrisse. Terminou a tortura gritando que ali estava o Batman depois de queimado. As gargalhadas soaram alto na turma e eu só consegui sentir repúdio e horror daquela execração. A incubadora de serpentes já estava ligada muito antes que chegasse a abertura democrática e as discussões sobre a nossa real natureza.
Abertura
Os anos 80 trouxeram a lendária campanha das Diretas Já. O clima de euforia e debates sobre a realidade nacional explodiram como uma criatura que rompe, num salto abrupto, a casca do ovo. Finalmente, as cortinas começaram a se abrir para que enxergássemos o verdadeiro Brasil e o mundo. Veio o Brizola. Ouvir o Brizola foi receber uma machadada que me abriu a cabeça. Impossível qualquer indiferença diante daquele gaúcho destemido, voltando do exílio para nos ensinar sobre inclusão, sobre o valor da educação, sobre o respeito pelos pobres, enfrentando a Rede Globo de peito aberto, sabendo que desmascarava um grupo que apoiou duas décadas de uma ditatura covarde. Leonel Brizola foi o profeta que despertou muitos de nós. Talvez tenha sido ele que me fez consolidar definitivamente a crença na igualdade, fraternidade e liberdade.
Amigos entusiasmados vinham me contar sobre as maravilhas do socialismo. Hoje, muitos desses amigos são capitalistas e liberais desde criancinha. O dinheiro é um túmulo ideológico.
Collor, Itamar, FHC, Lula, Dilma e agora o governo usurpador e cínico do Temer. Os nossos passos foram evoluindo até este ponto em que gangues de políticos, armados pela ilegitimidade consentida, reiniciaram o desmonte e o retrocesso que devolve o controle dos cofres públicos aos tutores do poder. Não nos tolhem mais a liberdade, não precisam. Basta anunciarem que as instituições estão funcionando, é a senha para toda e qualquer barbárie que queiram impor. Ouvem as vozes das ruas, aquelas que atendem aos seus interesses. Para que OSPB e Moral e Cívica? A Globo, com o apoio dos movimentos de extrema-direita, molda as mentes que batem panelas e fazem o barulho incômodo. Para que um golpe militar quando temos Bispos e Bolsonaros à espreita? As sementes dos tempos de exceção não param de germinar.
O homem cordial
Um francês me disse que o Brasil é um país de xenófobos enrustidos. Como? Que absurdo! Não acreditei até testemunhar o episódio dos médicos cubanos, quase linchados ao desembarcarem aqui para nos ajudar a promover a saúde nas nossas cidades mais remotas. Não, não foi só uma reação corporativa de médicos egoístas. Foi xenofobia.
Não somos racistas? Somos piores, não aceitamos sequer oferecer a oportunidade das cotas, que não nos redimem do crime escravagista que perpetuamos enquanto foi possível. Somos homofóbicos. Somos misóginos. Somos violentos. Somos delatores. Cultivamos um forte preconceito de classe. Não aceitamos nenhum tipo de Bolsa Família que suavize a miséria. Preferimos doar migalhas por caridade a compartilhar riquezas. É o imenso abismo social que alimenta o contraditório delírio das nossas elites, que pensam pertencer ao primeiro mundo e creem ocupar o pódio pelo resultado justo da meritocracia. Somos Caim.
E onde está o homem cordial de Raízes do Brasil? Onde está a virtude que seria a nossa melhor herança para a humanidade? Para onde foi o nosso instinto de viver nos outros? Há quem afirme que ele foi torturado e morto em algum porão obscuro da história.
O homem cordial não poderia sobreviver numa nação que escolheu ser prostituta de cafetões rentistas. A prostituta que se apaixona, que ama os homens, não é útil aos ganhos do bordel. Da mesma forma, o Estado moderno não deve mais servir ao cidadão, mas ao mercado. As necessidades do Estado mínimo exigem, novamente, o descarte de qualquer relação sentimental e humana que o desvie do seu propósito maior: o lucro privado e restrito a poucos.
***
Alexandre Coslei é jornalista
Publicado originalmente no Observatório Imprensa
terça-feira, 13 de dezembro de 2016
Luiz Fernando Praga
Tenho uma filha pequena que, justo agora, infortúnio, perguntou-me o que é a “justiça”.
Fiquei constrangido, mas arrisquei.
“A “justiça”, filha é um produto que se compra aos pouquinhos e jamais se consegue inteira. Você precisa ter muito dinheiro, ser uma bilionária mesmo para atingir os meandros mais ocultos da “justiça”, porque até os milionários têm menos acesso à “justiça” que os bilionários. Nós, os pobres, só podemos ter uns pedacinhos dela, ficamos com as migalhas dos direitos que não servem para os ricos.
Vou dar exemplos:
A “justiça” é aquela instituição que nos obriga a votar, depois anula nosso voto, diz que era mentirinha e coloca cargo quem ela gosta mais.
A “justiça”, filha, é o poder que promove a superlotação de presídios com seres humanos, em regra pretos e pobres, pessoas como nós, filha, nem um pouco diferentes, só que em situação desumana.
A “justiça” é aquela instituição que premia, com os maiores privilégios, aqueles que já nascem com muitos privilégios.
A “justiça” é aquela instituição que permite a um juiz dar voz de prisão aos atendentes da companhia aérea porque ele chegou atrasado para o embarque, permite ao juiz passear com carro esportivo confiscado do réu e prender agente de trânsito que ousa dizer que juiz não é deus.
A “justiça” é a instituição cujos representantes são os abnegados mantenedores das leis, que ganham os maiores salários da república e servem pra prender quem não tem dinheiro pra pagar advogados e, por outro lado, garantir a Inocência dos mais ricos.
A “justiça” é aquela instituição idônea do Gilmar Mendes, do Levandowski, do Moro, que persegue e difama por “convicção”, faz vistas grossas quando tem provas e toma decisões sempre imparciais e apartidárias segundo a globo.
Ela, porém, não é privilégio do Brasil, filha. Nossa “justiça” copia modelos clássicos, como aquele que crucificou Jesus Cristo, os que encarceraram Pepe Mujica e Nelson Mandela, como o sistema que mata 1 inocente a cada 25 condenados à morte, porque, claro, a vida é um detalhe desprezível para a “justiça”: ela não gosta de vida, gosta de poder e dinheiro.
A “justiça” é essa produção hollywoodiana que custa bilhões aos bolsos do contribuinte, amparada pela mídia e cheia de holofotes que nos vicia a acreditar em qualquer ficção como sendo a verdade.
Ela é esse poder que nos tem a todos em suas mãos, apenas para garantir que nenhum de nós, criminosos até que se prove o contrário, possa dar um rumo diferente aos planos da “justiça”.”
Então, como não quero que minha filha amada (como devem ser amados todos os filhos que não são meus) cresça com este triste conceito assombrando seu futuro, achei importante ampliar a explicação.
“Já a JUSTIÇA, minha filha, ela só se manifesta quando se ouve a voz do oprimido, pois ela tem sempre a dizer as verdades que a voz do opressor não quer que ninguém saiba.
A JUSTIÇA está nas mãos que acolhem os pobres, as minorias, os mais velhos, os doentes e as crianças, jamais nas mãos hipócritas que condenam por interesse e vaidade. Juízes não são deuses, filha, mas não espalha… ou melhor, pode espalhar!
A JUSTIÇA não está nas instituições nem nos templos, a JUSTIÇA está incubada na consciência de cada ser humano, mas a justiça hipócrita da sociedade proíbe que ativemos a JUSTIÇA natural que há em nós.
ELA não depende dos homens da “justiça”. Depende de crianças pensantes que aprendam a responsabilidade sobre seus atos. Depende de pais que eduquem para o amor e de escolas que formem cidadãos. Mesmo se algum pai transmitir a seu filho um conceito muito distorcido de JUSTIÇA, no mundo JUSTO, ninguém terá o poder de institucionalizar essa “justiça” tosca e errada como está institucionalizada hoje.
A JUSTIÇA, filha, não está em mudar de mãos este poder que nos oprime, a JUSTIÇA está em abrir mão desse poder canceroso.
A JUSTIÇA depende da insubordinação de cada ser humano a esta outra “justiça” de laboratório, fria, corrupta, podre, tendenciosa, gananciosa, criada e desenvolvida com os piores interesses, para manter livre e poderosa toda a injustiça vigente.
A “justiça” enxerga muito bem, cegos estamos nós, mas só por mais algum tempo, filha.
A “justiça” cega, a LIBERDADE muda!”
Do blog Coluna Flexível
Por Luiz Fernando Praga
terça-feira, 4 de outubro de 2016
"Ser de esquerda é não aceitar as injustiças, sejam elas quais forem, como um fato natural. É não calar diante da violação dos Direitos Humanos, em qualquer país e em qualquer momento. É questionar determinadas leis – porque a Justiça, muitas vezes, não anda de mãos dadas com o Direito; e entre um e outro, o homem de esquerda escolhe a justiça.
É ser guiado por uma permanente capacidade de se estarrecer e, com ela e por causa dela, não se acomodar, não se vender, não se deixar manipular ou seduzir pelo poder. É escolher o caminho mais justo, mesmo que seja cansativo demais, arriscado demais, distante demais.
O homem de esquerda acredita que a vida pode e deve ser melhor e é isso, no fundo, que o move. Porque o homem de esquerda sabe que não é culpa do destino ou da vontade divina que um bilhão de pessoas, segundo dados da ONU, passe fome no mundo.
É caminhar junto aos marginalizados; é repartir aquilo que se tem e até mesmo aquilo que falta, sem sacrifício e sem estardalhaço. À direita, cabe a tarefa de dar o que sobra, em forma de esmola e de assistencialismo, com barulho e holofotes. Ser de esquerda é reconhecer no outro sua própria humanidade, principalmente quando o outro for completamente diferente. Os homens e mulheres de esquerda sabem que o destino de uma pessoa não deveria ser determinado por causa da cor da pele, do gênero ou da religião.
Ser de esquerda é não se deixar seduzir pelo consumismo; é entender, como ensinou Milton Santos, que a felicidade está ancorada nos bens infinitos. É mergulhar, com alegria e inteireza, na luta por um mundo melhor e neste mergulho não se deixar contaminar pela arrogância, pelo rancor ou pela vaidade. É manter a coerência entre a palavra e a ação. É alimentar as dúvidas, para não cair no poço escuro das respostas fáceis, das certezas cômodas e caducas. Porém, o homem de esquerda não faz da dúvida o álibi para a indiferença. Ele nunca é indiferente.
(Fernando Evangelista)
sexta-feira, 30 de setembro de 2016
Indústria da multa? Diante da loucura do trânsito de SP, tá multando pouco
Leonardo Sakamoto
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Obrigado às gerações de gestores municipais, estaduais e federais que elaboraram políticas voltadas a beneficiar o transporte individual em detrimento ao coletivo, seja para deslocamento municipal, regional e interestadual.
Obrigado aos tecnocratas que decidiram por incentivar financeiramente parte da população a trocar seus bólidos a cada ano a fim de suprir as frustrações do dia a dia sob a justificativa de geração de empregos ao invés de usarem esses recursos na criação de postos de trabalho para a fabricação e veiculação de ônibus, trens, bondes e na reestruturação da malha urbana para acolher ciclistas e pedestres.
Obrigado aos políticos em geral pela falta de ações para descentralizar o desenvolvimento econômico, forçando moradores, principalmente os mais pobres, a cruzarem a cidade ao invés de poderem trabalhar, estudar e se divertir perto de casa.
Obrigado imensamente à indústria automobilística. Sem vocês e suas campanhas publicitárias caríssimas seria impossível ao paulistano compreender a principal regra de nossa cidade: quem não possui um carro é a merda do cavalo do bandido.
Obrigado a você consumidor que pega o carro para ir até a padaria na esquina, tira fina de ciclista porque acha que a rua pertence aos motores a combustão e acha que andar a pé ou de transporte público não condiz com sua classe social.
E obrigado a você eleitor que corre com seu possante, transformando-o em uma arma, e depois reclama da ''indústria da multa''. E, ao invés de analisar seu próprio comportamento e refletir sobre as prioridades da vida, xinga a redução de velocidade máxima na cidade e tapa os ouvidos quando os jornais trazem que grandes cidades do mundo também estão reduzindo seus limites.
Graças a todos e todas, conseguimos o feito de transferir a cidadania das pessoas para os automóveis. Eles têm mais direitos que nós, apesar de não contarem com vontade própria.
Nós, paulistanos, ou melhor, o Povo do Horizonte Marrom nos Dias Frios, nos refestelamos em ar condicionado potente, bancos confortáveis e um aparelho de som master-blaster double stereo high quality que tem que ser forte para esconder o barulho da buzina do lado de fora. Acreditando, piamente, que não morremos a cada dia com a poluição de nossa própria ignorância e nos tornamos menos humanos pela perda de empatia com quem anda sem motor.
Vamos comemorar! Ouça um musiquinha relaxante, talvez de novos artistas da MPB, no trânsito. E, se não for o motorista, leia uma biografia. Não se preocupe, há tempo. Todo o tempo do mundo.
E entorpecido pela promessa vazia da liberdade dos comerciais de TV que vendem sonhos na forma de carros em 60 vezes, aproveite para esquecer que os minutos que você ganha no trânsito não compensam uma vida.
Vida que, enjaulada no trânsito, não é vida.
terça-feira, 2 de agosto de 2016
A ESCANDALOSA FALTA DE ÉTICA NO BRASIL
Por Leonardo Boff, em seu blog:
O país, sob qualquer ângulo que o considerarmos, é contaminado por
uma espantosa falta de ética. O bem é só bom quando é um bem para
mim e para os outros; não é um valor buscado e vivido por si mesmo;
mas o que predomina é a esperteza, o dar-se bem, o ser espertinho, o
jeitinho e a lei de Gerson.
Os vários escândalos que se deram a conhecer, revelam um falta de
consciência ética alarmante. Diria, sem exagero, que o corpo social
brasileiro está de tal maneira putrefato que onde quer que aconteça
algum pequeno arranhão já mostra sua purulência.
A falta de ética se revela nas mínimas coisas, desde as mentirinhas
ditas em casa aos pais, a cola na escola ou nos concursos, o suborno
de agentes da polícia rodoviária quando alguém é surpreendido numa
infração de trânsito, desviar dinheiros públicos, beneficiar-se de cargos, enganar nos preços, em jogar lixo na calçada e até em fazer pipi na rua.
Essa falta generalizada de ética deita raízes em nossa pré-história. É uma consequência perversa do que foi a colonização. Ela impôs ao colonizado
a submissão, a total dependência à vontade do outro e a renúncia a ter
a sua própria vida. Estava entregue ao arbítrio do invasor. Para escapar
da punição, se obrigava a mentir, a esconder intenções e a fingir. Isso
levava a uma corrupção da mente. A ética da submissão e do medo leva fatalmente a uma ruptura com a ética (cf. J. Le Goff, O medo no
Ocidente), quer dizer, começa a faltar com a verdade, a nunca poder
ser transparente e, quando pode, prejudica seu opressor. O colonizado
se obrigou, como forma de sobrevivência, a mentir e a encontrar um
“jeitinho” de burlar a vontade do senhor. A Casa Grande e a Senzala são
um nicho, produtor de falta de ética: pela relação desigual de senhor e de escravo. O ethos do senhor é profundamente anti-ético: ele pode dispor
do outro como quiser pois é apenas uma “peça” como se dizia, a todo
momento estava pronto a abusar sexualmente das escravas e a vender
seus filhos pequenos para que não tivessem apego a eles. Nada de mais
cruel, anti-ético e perverso do que a destruição dos laços de mãe e filhos.
Esse tipo de ética desumana criou hábitos e práticas que, de uma forma
ou de outra, continuam,no inconsciente coletivo de nossa sociedade.
A abolição da escravatura ocasionou uma maldade ética imperdoável: alforiaram-se os escravos, mas sem fornecer-lhes um pedacinho de terra,
uma casinha e um instrumento de trabalho. Foram lançados diretamente
na favela. E hoje por causa de sua cor e pobreza são discriminados,
humilhados e as primeiras vítimas da violência policial e social.
A situação, em sua estrutura, não mudou com a República. Os antigos
senhores coloniais foram substituídos pelos coronéis e senhores de
grandes fazendas e capitães da indústria. Aí as pessoas eram ultra-
exploradas e feitas totalmente dependentes. Os comportamentos não
eram éticos no sentido do respeito mínimo às pessoas e à garantia de
seus direitos básicos. A relação era de medo e de uso de violência ou
repressão. Foram feitos carvão para a produção como costumava
dizer Darcy Ribeiro.
As relações de produção capitalista (em si altamente questionáveis
eticamente pela relação desigual entre capital e trabalho) que se
introduziram no Brasil pelo processo de industrializção e modernização
foram selvagens. Nosso capitalismo nunca foi civilizado pois nunca foi
possível uma verdadeira luta de classes (que tem suas regras), no sentido
de equilibrar os interesses antagônicos. Ele guardou sua voracidade de acumulação como nas origens no século XVIII e XIX o que se vê
claramente no sistema bancário atual, cujas taxas de juros são das
mais altas do mundo e os lucros exorbitantes.
A exploração impiedosa da força de trabalho, os baixos salários são
situações eticamente malévolas pelo grau de desumanidade e de
injustiça que encerram impondo privações e muito sofrimento às
famílias.
Como superar essa situação que nos envergonha? Ela dura séculos e
foi praticamente naturalizada. Como ouvi de uma pessoa ilustrada que
acusava como corrupto um politico honrado que eu defendia. Sua
resposta foi típica: se roubou foi esperto e se não roubou foi um bobo.
Assim não dá…
Antes de fazer qualquer sugestão minima, importa fazer uma auto-crítica.
Que educação deram as centenas de escolas católicas e cristas e as 16 universidades católicas (pontifícias ou não) a seus estudantes? Bastava
terem-lhe ensinado o mínimo da mensagem de Jesus de amor aos
pobres contra sua pobreza e comprometê-los em mudanças necessárias
para que sua situação hoje fosse menos malvada.
Elas se transformaram, em boa parte, nem todas, em chocadeiras dos opressores. De lá sairam diretores de empresas exploradores,
economistas de um liberalismo feroz e funcionários públicos sem
senso do bem comum, Segundo o motto estabelecido: “o que é de
todos não é de ninguém, portanto, posso me apropriar dele
tranquilamente”.
A catequese foi doutrinalesca, interessada mais na reta doutrina e menos
no reto comportamento. Criou-se um cristianismo cultural que até
prescinde da fé. Não foi um cristianismo de fé comprometida com a
justiça social e com o destino das grandes maiorias pobres e
discriminadas.
Como é possível que num país majoritariamente cristão vigore tanta
injustiça, insensibilidade, discriminação social e humilhação de
negros e pobres? Alguma coisa errada ocorreu em nossos processos
de transmissão da mensagem libertadora e humanizadora de Jesus
a ponto de os corruptos e corruptores cristãos, quase todos cristãos,
sequer terem a má consciência do que fazem. É a resposta que o
deputado Severino Cavalcanti, cassado de seu mandato por
corrupção, deu a alguém que lhe perguntou se ia se suicidar:
“não me suicido porque sou cristão”. Que signfificou para ele o fato
de ser cristão? Nada.
Por isso, os que sairam das escolas cristãs não se distinguiramk pela
incidência social numa perspectiva de transformação. São antes pela manutenção do status quo do que por mudanças.
Nem por isso queremos olvidar nomes notáveis em vários estratos
sociais para os quas o cristianismo foi uma escola de humanização e de
compromisso com a sorte dos mais vulneráveis. Infelizmente não foram
eles que definiram o rumo de nossa história de corrupção.
Para superarmos a crise da ética não bastam apelos moralizantes,
sempre tão fáceis, mas uma transformação da sociedade. Antes de
ser ética, a questão é política, pois esta, a política, é estruturada em
relações profundamente anti-éticas.
Já faríamos muito se assumíssemos a pregação do primo de Jesus,
seu precursos, São João Batista. Aos que lhe perguntavam o que
deviam fazer, respondia:”Quem tiver duas túnicas, dê uma a quem
não tem nenhuma, e o mesmo faça a quem não tem alimentos”.
Traduzindo para a nossa situação seria: “seja solidário e não deixe
de ajudar os mais necessitados”. Aos cobradores de impostos
lhes dizia:” Não exija mais do que a taxa definida”. À polícia
respondia:”não pratiques torturas nem chantagens contra
ninguém (delação premiada?) e contente-se com seu salário.”
Deixando para trás o permanente valor da mensagem ética de
João Batista,diria para ser brevíssimo: tudo deve começar pela
família. Criar caráter (um dos sentidos de ética) nos filhos e filhas,
formá-los na busca do bem e da verdade para não se deixarem
seduzir pela lei de Gerson e evitar, sistematicamente, o jeitinho.
Princípio básico de toda e qualquer ética: tratar sempre
humanamente a cada ser humano.
Tomar absolutamente sério a lei áurea que é testemunhada em
todas as tradições culturais e religiosas: “não faça ao outro o que
não quer que te façam a ti”. Ou “ame o próximo como a ti mesmo”
que na versão do evangelho de São Jão e de São Francisco é assim traduzida:”ame o outro mais que a ti mesmo”; “que eu procure mais
consolar que ser consolado, mais compreender do que ser
compreendido, mais amar do que ser amado.”
Siga o preceito de Kant: que o princípio que te leva fazer o bem, seja
válido também para os outros. Oriente-se pelos dez mandamentos,
escritos na Bíblia como forma de ordenar a vida social do Povo de Deus
e, que no fundo, são universalmente válidos. Traduzidos para hoje:
o “não matar” significa, venere a vida, cultive uma cultura da não
violência. O “não roubar”: aja com justiça e correção e lute por
uma ordem econômica justa. O “não cometer adultério”: amem-se
e respeitem-se mutuamene, e obriguem-se a uma cultura da
igualdade e pareceria entre o homem e a mulher. Isso é o mínimo que poderíamos fazer para arejar um pouco a
atmosfera ética de nosso país.
Repetindo o grande Aristóteles, o mestre da ética ocidental:
”não refletimos para saber o que seja a ética, mas para tornarmo-nos
pessoas éticas”.
O país, sob qualquer ângulo que o considerarmos, é contaminado por
uma espantosa falta de ética. O bem é só bom quando é um bem para
mim e para os outros; não é um valor buscado e vivido por si mesmo;
mas o que predomina é a esperteza, o dar-se bem, o ser espertinho, o
jeitinho e a lei de Gerson.
Os vários escândalos que se deram a conhecer, revelam um falta de
consciência ética alarmante. Diria, sem exagero, que o corpo social
brasileiro está de tal maneira putrefato que onde quer que aconteça
algum pequeno arranhão já mostra sua purulência.
A falta de ética se revela nas mínimas coisas, desde as mentirinhas
ditas em casa aos pais, a cola na escola ou nos concursos, o suborno
de agentes da polícia rodoviária quando alguém é surpreendido numa
infração de trânsito, desviar dinheiros públicos, beneficiar-se de cargos, enganar nos preços, em jogar lixo na calçada e até em fazer pipi na rua.
Essa falta generalizada de ética deita raízes em nossa pré-história. É uma consequência perversa do que foi a colonização. Ela impôs ao colonizado
a submissão, a total dependência à vontade do outro e a renúncia a ter
a sua própria vida. Estava entregue ao arbítrio do invasor. Para escapar
da punição, se obrigava a mentir, a esconder intenções e a fingir. Isso
levava a uma corrupção da mente. A ética da submissão e do medo leva fatalmente a uma ruptura com a ética (cf. J. Le Goff, O medo no
Ocidente), quer dizer, começa a faltar com a verdade, a nunca poder
ser transparente e, quando pode, prejudica seu opressor. O colonizado
se obrigou, como forma de sobrevivência, a mentir e a encontrar um
“jeitinho” de burlar a vontade do senhor. A Casa Grande e a Senzala são
um nicho, produtor de falta de ética: pela relação desigual de senhor e de escravo. O ethos do senhor é profundamente anti-ético: ele pode dispor
do outro como quiser pois é apenas uma “peça” como se dizia, a todo
momento estava pronto a abusar sexualmente das escravas e a vender
seus filhos pequenos para que não tivessem apego a eles. Nada de mais
cruel, anti-ético e perverso do que a destruição dos laços de mãe e filhos.
Esse tipo de ética desumana criou hábitos e práticas que, de uma forma
ou de outra, continuam,no inconsciente coletivo de nossa sociedade.
A abolição da escravatura ocasionou uma maldade ética imperdoável: alforiaram-se os escravos, mas sem fornecer-lhes um pedacinho de terra,
uma casinha e um instrumento de trabalho. Foram lançados diretamente
na favela. E hoje por causa de sua cor e pobreza são discriminados,
humilhados e as primeiras vítimas da violência policial e social.
A situação, em sua estrutura, não mudou com a República. Os antigos
senhores coloniais foram substituídos pelos coronéis e senhores de
grandes fazendas e capitães da indústria. Aí as pessoas eram ultra-
exploradas e feitas totalmente dependentes. Os comportamentos não
eram éticos no sentido do respeito mínimo às pessoas e à garantia de
seus direitos básicos. A relação era de medo e de uso de violência ou
repressão. Foram feitos carvão para a produção como costumava
dizer Darcy Ribeiro.
As relações de produção capitalista (em si altamente questionáveis
eticamente pela relação desigual entre capital e trabalho) que se
introduziram no Brasil pelo processo de industrializção e modernização
foram selvagens. Nosso capitalismo nunca foi civilizado pois nunca foi
possível uma verdadeira luta de classes (que tem suas regras), no sentido
de equilibrar os interesses antagônicos. Ele guardou sua voracidade de acumulação como nas origens no século XVIII e XIX o que se vê
claramente no sistema bancário atual, cujas taxas de juros são das
mais altas do mundo e os lucros exorbitantes.
A exploração impiedosa da força de trabalho, os baixos salários são
situações eticamente malévolas pelo grau de desumanidade e de
injustiça que encerram impondo privações e muito sofrimento às
famílias.
Como superar essa situação que nos envergonha? Ela dura séculos e
foi praticamente naturalizada. Como ouvi de uma pessoa ilustrada que
acusava como corrupto um politico honrado que eu defendia. Sua
resposta foi típica: se roubou foi esperto e se não roubou foi um bobo.
Assim não dá…
Antes de fazer qualquer sugestão minima, importa fazer uma auto-crítica.
Que educação deram as centenas de escolas católicas e cristas e as 16 universidades católicas (pontifícias ou não) a seus estudantes? Bastava
terem-lhe ensinado o mínimo da mensagem de Jesus de amor aos
pobres contra sua pobreza e comprometê-los em mudanças necessárias
para que sua situação hoje fosse menos malvada.
Elas se transformaram, em boa parte, nem todas, em chocadeiras dos opressores. De lá sairam diretores de empresas exploradores,
economistas de um liberalismo feroz e funcionários públicos sem
senso do bem comum, Segundo o motto estabelecido: “o que é de
todos não é de ninguém, portanto, posso me apropriar dele
tranquilamente”.
A catequese foi doutrinalesca, interessada mais na reta doutrina e menos
no reto comportamento. Criou-se um cristianismo cultural que até
prescinde da fé. Não foi um cristianismo de fé comprometida com a
justiça social e com o destino das grandes maiorias pobres e
discriminadas.
Como é possível que num país majoritariamente cristão vigore tanta
injustiça, insensibilidade, discriminação social e humilhação de
negros e pobres? Alguma coisa errada ocorreu em nossos processos
de transmissão da mensagem libertadora e humanizadora de Jesus
a ponto de os corruptos e corruptores cristãos, quase todos cristãos,
sequer terem a má consciência do que fazem. É a resposta que o
deputado Severino Cavalcanti, cassado de seu mandato por
corrupção, deu a alguém que lhe perguntou se ia se suicidar:
“não me suicido porque sou cristão”. Que signfificou para ele o fato
de ser cristão? Nada.
Por isso, os que sairam das escolas cristãs não se distinguiramk pela
incidência social numa perspectiva de transformação. São antes pela manutenção do status quo do que por mudanças.
Nem por isso queremos olvidar nomes notáveis em vários estratos
sociais para os quas o cristianismo foi uma escola de humanização e de
compromisso com a sorte dos mais vulneráveis. Infelizmente não foram
eles que definiram o rumo de nossa história de corrupção.
Para superarmos a crise da ética não bastam apelos moralizantes,
sempre tão fáceis, mas uma transformação da sociedade. Antes de
ser ética, a questão é política, pois esta, a política, é estruturada em
relações profundamente anti-éticas.
Já faríamos muito se assumíssemos a pregação do primo de Jesus,
seu precursos, São João Batista. Aos que lhe perguntavam o que
deviam fazer, respondia:”Quem tiver duas túnicas, dê uma a quem
não tem nenhuma, e o mesmo faça a quem não tem alimentos”.
Traduzindo para a nossa situação seria: “seja solidário e não deixe
de ajudar os mais necessitados”. Aos cobradores de impostos
lhes dizia:” Não exija mais do que a taxa definida”. À polícia
respondia:”não pratiques torturas nem chantagens contra
ninguém (delação premiada?) e contente-se com seu salário.”
Deixando para trás o permanente valor da mensagem ética de
João Batista,diria para ser brevíssimo: tudo deve começar pela
família. Criar caráter (um dos sentidos de ética) nos filhos e filhas,
formá-los na busca do bem e da verdade para não se deixarem
seduzir pela lei de Gerson e evitar, sistematicamente, o jeitinho.
Princípio básico de toda e qualquer ética: tratar sempre
humanamente a cada ser humano.
Tomar absolutamente sério a lei áurea que é testemunhada em
todas as tradições culturais e religiosas: “não faça ao outro o que
não quer que te façam a ti”. Ou “ame o próximo como a ti mesmo”
que na versão do evangelho de São Jão e de São Francisco é assim traduzida:”ame o outro mais que a ti mesmo”; “que eu procure mais
consolar que ser consolado, mais compreender do que ser
compreendido, mais amar do que ser amado.”
Siga o preceito de Kant: que o princípio que te leva fazer o bem, seja
válido também para os outros. Oriente-se pelos dez mandamentos,
escritos na Bíblia como forma de ordenar a vida social do Povo de Deus
e, que no fundo, são universalmente válidos. Traduzidos para hoje:
o “não matar” significa, venere a vida, cultive uma cultura da não
violência. O “não roubar”: aja com justiça e correção e lute por
uma ordem econômica justa. O “não cometer adultério”: amem-se
e respeitem-se mutuamene, e obriguem-se a uma cultura da
igualdade e pareceria entre o homem e a mulher. Isso é o mínimo que poderíamos fazer para arejar um pouco a
atmosfera ética de nosso país.
Repetindo o grande Aristóteles, o mestre da ética ocidental:
”não refletimos para saber o que seja a ética, mas para tornarmo-nos
pessoas éticas”.
MOÇA, SEU CLITÓRIS É PODER
Palmira Margarida
: Notas Perfumadas
28 • 07 • 2016 | por Palmira Margarida
Hoje, o papo vai ser reto: constata-se que muita gente não gosta de clitóris
e me parece que essa história é antiga. Tem mulher que tem vergonha,
tem moça doida para mexer nele, mas sente culpa, outras nunca olharam
lá e devem estar lendo este artigo com sobrancelhas arqueadas.
Miga, não fica chocada comigo e muito menos contigo, caso nunca tenha
trocado um papo reto com a sua vulva. A culpa não é sua. A sociedade
nos educa para odiarmos os nossos corpos femininos e para termos
vergonha de nossos mamilos, vaginas, dobrinhas, curvas, enfim, tudo!
Ser mulher é uma vergonha, né? Falar de “pepeka” nem pensar,
o clitóris, então, é a blasfêmia. A zoeira histórica e científica com
nossos corpos de fêmeas foi tanta que hoje, em pleno século XXI,
a gente ainda fica cheia de pudor para tocar nesse assunto,
literalmente! A mulher é ensinada a não ter contato com o próprio
corpo. A (nome da caixa de Pandora onde estão guardados todos
os males do mundo) é o portal para fora do paraíso e o clitóris,
um aparato de conexão com as forças do mal. Este panorama foi
estruturado, por um lado, por instituições religiosas, por outro,
pela ciência. A primeira, que atinando para o prazer feminino
como forma de poder, tacha a mulher dotada de autonomia sobre
o próprio corpo como um ser bestial. A segunda, impregnada de
misoginia desde seu início, não via como importante um órgão que
servia apenas para conceder prazer à mulher, relegando-o às páginas
de anatomia e omitindo-o dos círculos de temas importantes, sempre
tratando nosso órgão do prazer (hoje, eu prefiro nomeá-lo “órgão
da saúde”) como um apêndice ou algo menos, afinal, apêndice ainda
serve para dar apendicite, enquanto clitóris não serve para nada, né?!
Bom, moça, tempo passou e todas nós continuamos nascendo com
clitóris, esse órgão que “não serve para nada”. Alto lá! Não serve
para quem? Para você serve e muito, tenha certeza! No entanto,
tem homem que não gosta, que não sabe para que serve, muito
menos qual a importância dele. Na verdade, eles nem sabem onde
fica o tal ser diabólico, amoral e tentador, esse tal de clitóris.
Alguns que sabem fazem questão de mutilar algumas de nós,
com pedaços de vidro ou um metal qualquer que catou-se no chão*.
Muitas meninas morrem quando têm seus clitóris arrancados e
não estou falando de morte física (apesar de muitas morrerem no
processo), mas de morte da alma e da dignidade. Outras, têm seus
clitóris diminuídos, através de cirurgias reparadoras, agora não
por uma instituição religiosa, mas pela ciência médica que, pasme,
se acha no direito de ditar o que é um clitóris normal ou não.
Bem, moças, pelo que eu saiba existem pintos pequenos, grandes,
muito grandes, micropênis e nunca ouvi falar de um médico que
tenha impelido seu paciente a cortar metade do pênis porque
era grande demais. E aos que dizem que a internet está cheia de
sites com truques mágicos para aumentar um pênis pequeno,
atenção, não se trata de uma medicina invasiva dizendo que um
órgão de seu corpo é anormal e inaceitável para viver em
sociedade, e sim, entende-se, apenas, ser ego de macho. No rastro
da história, o clitóris sempre foi coadjuvante no filme da vida!
Talvez, uma única vez ele quase tenha chegado ao papel
principal. Foi na Grécia antiga, quando Hipócrates achou
que o clitóris fabricava um tipo de esperma, assim como o
pênis, fundamental para a mulher engravidar. Ou seja, para
ficarmos grávidas, precisaríamos ter orgasmos a fim de que tal
esperma fosse liberado pelo clitóris. O tempo passou, a Idade
Média fez vista grossa, afinal, as bestas precisavam de orgasmos
para procriar, então, tudo bem, pelo menos serve para isso! Mas,
ainda entendendo a mulher como um ser demoníaco, egoísta e que
precisava ter prazer a qualquer custo. Entenda, o prazer da mulher
por ela mesma não estava liberado, era permitido apenas para a
reprodução (para liberar o tal esperma feminino) e masturbar-se
era pecado. A primeira pessoa no mundo ocidental que escreveu
sobre clitóris foi o anatomista Ronaldo Columbus (no século XVI)
e chamou o órgão de “cidade do amor”. Antes e depois dele,
alguns outros homens comentaram sobre a genitália da mulher,
porém sempre comparando nossos corpos com os masculinos e
sustentando a ideia de que nossa vulva era um “pênis triste”, um
órgão masculino incompleto, defeituoso ou inferior. É por essas e
outras que, para descontrair, gosto de falar “A clitóris”, mesmo
sabendo que o certo é “O clitóris”, sujeitando a palavra ao órgão.
Mas minha vulva é meio anarquista, então, gosto de falar
“minha clitóris” e não “meu clitóris”.
Entre os séculos XIX e XX (século XX, minas, tipo, ontem!) o
clitóris ainda era tímido na Gray’s Anatomy e o que corroborou
muito para isto foi o médico Van Beneden descobrir, em 1875,
que gravidez nada tinha a ver com o prazer da mulher. Ou seja,
se o clitóris não era mais útil à reprodução, então não era mais
necessário falar sobre ele. Aliás, um tal Dr Baker Brown, em
Londres, apresentou à sociedade, a hipótese de mulheres serem
‘’nervosas e histéricas’’ por culpa do clitóris, portanto, o mesmo
deveria ser cortado, prática que perdurou até a década de 1920.
Então, imagina a cena: a mulher emite uma opinião qualquer
em casa, o marido leva ao médico e diz “doutor, essa mulher
está histérica” e o médico responde “ok, vamos cortar o clitóris
dela e logo ela ficará calminha’’.
Precisou passar todo o século XX para uma anatomista mulher
indignar-se, claro, resolver colocar a mão no clitóris e
desvendá-lo. Hellen O’Connell descobriu que o órgão pode chegar
até oito centímetros, que apresenta o dobro de terminações
nervosas de um pênis e, o melhor, ele está associado a todo o
organismo feminino. Ou seja, se esse pequeno órgão faz ligação
com todo o nosso corpo, isso significa que o prazer proporcionado
por ele interfere, positivamente, em nossa saúde física, mental
e emocional. É melhor que Rivotril! Por isso, iniciei essa trilogia
com o tema masturbação feminina, já que algumas cientistas
começam a apontar essa prática como um hábito saudável
para todas nós. Moça, seu clitóris tem poder! No próximo e
último artigo da Trilogia do Clitóris, veremos os benefícios
da masturbação autônoma feminina, além de práticas atuais
sobre o tema, desenvolvidas por mulheres ao redor do mundo.
*A prática da retirada do clitóris, apesar de ser considerada
um ato contra a dignidade da pessoa humana, ainda é
praticada em algumas partes do mundo por questões religiosas
ou estéticas.
Palmira Margarida é historiadora e atualmente é doutoranda na UFRJ.
Pesquisa sobre neurociências, os cheiros e as emoções. Estuda
também neurobiologia das plantas e é a pisciana mais ariana de que se
tem conhecimento. Descende de italianos e adora uma massa,
mas fala sem gesticular. Ama viajar e captar os aromas das trilhas,
das culturas e das ideias. Está em busca do profundo perfume do Ser.
Escreve neste espaço às quintas-feiras. Para informações sobre
seu trabalho com aromas na Casa Alquímica, entre em contato
pelo e-mail:palmira.margarida@revistavertigem.com
e me parece que essa história é antiga. Tem mulher que tem vergonha,
tem moça doida para mexer nele, mas sente culpa, outras nunca olharam
lá e devem estar lendo este artigo com sobrancelhas arqueadas.
Miga, não fica chocada comigo e muito menos contigo, caso nunca tenha
trocado um papo reto com a sua vulva. A culpa não é sua. A sociedade
nos educa para odiarmos os nossos corpos femininos e para termos
vergonha de nossos mamilos, vaginas, dobrinhas, curvas, enfim, tudo!
Ser mulher é uma vergonha, né? Falar de “pepeka” nem pensar,
o clitóris, então, é a blasfêmia. A zoeira histórica e científica com
nossos corpos de fêmeas foi tanta que hoje, em pleno século XXI,
a gente ainda fica cheia de pudor para tocar nesse assunto,
literalmente! A mulher é ensinada a não ter contato com o próprio
corpo. A (nome da caixa de Pandora onde estão guardados todos
os males do mundo) é o portal para fora do paraíso e o clitóris,
um aparato de conexão com as forças do mal. Este panorama foi
estruturado, por um lado, por instituições religiosas, por outro,
pela ciência. A primeira, que atinando para o prazer feminino
como forma de poder, tacha a mulher dotada de autonomia sobre
o próprio corpo como um ser bestial. A segunda, impregnada de
misoginia desde seu início, não via como importante um órgão que
servia apenas para conceder prazer à mulher, relegando-o às páginas
de anatomia e omitindo-o dos círculos de temas importantes, sempre
tratando nosso órgão do prazer (hoje, eu prefiro nomeá-lo “órgão
da saúde”) como um apêndice ou algo menos, afinal, apêndice ainda
serve para dar apendicite, enquanto clitóris não serve para nada, né?!
Bom, moça, tempo passou e todas nós continuamos nascendo com
clitóris, esse órgão que “não serve para nada”. Alto lá! Não serve
para quem? Para você serve e muito, tenha certeza! No entanto,
tem homem que não gosta, que não sabe para que serve, muito
menos qual a importância dele. Na verdade, eles nem sabem onde
fica o tal ser diabólico, amoral e tentador, esse tal de clitóris.
Alguns que sabem fazem questão de mutilar algumas de nós,
com pedaços de vidro ou um metal qualquer que catou-se no chão*.
Muitas meninas morrem quando têm seus clitóris arrancados e
não estou falando de morte física (apesar de muitas morrerem no
processo), mas de morte da alma e da dignidade. Outras, têm seus
clitóris diminuídos, através de cirurgias reparadoras, agora não
por uma instituição religiosa, mas pela ciência médica que, pasme,
se acha no direito de ditar o que é um clitóris normal ou não.
Bem, moças, pelo que eu saiba existem pintos pequenos, grandes,
muito grandes, micropênis e nunca ouvi falar de um médico que
tenha impelido seu paciente a cortar metade do pênis porque
era grande demais. E aos que dizem que a internet está cheia de
sites com truques mágicos para aumentar um pênis pequeno,
atenção, não se trata de uma medicina invasiva dizendo que um
órgão de seu corpo é anormal e inaceitável para viver em
sociedade, e sim, entende-se, apenas, ser ego de macho. No rastro
da história, o clitóris sempre foi coadjuvante no filme da vida!
Talvez, uma única vez ele quase tenha chegado ao papel
principal. Foi na Grécia antiga, quando Hipócrates achou
que o clitóris fabricava um tipo de esperma, assim como o
pênis, fundamental para a mulher engravidar. Ou seja, para
ficarmos grávidas, precisaríamos ter orgasmos a fim de que tal
esperma fosse liberado pelo clitóris. O tempo passou, a Idade
Média fez vista grossa, afinal, as bestas precisavam de orgasmos
para procriar, então, tudo bem, pelo menos serve para isso! Mas,
ainda entendendo a mulher como um ser demoníaco, egoísta e que
precisava ter prazer a qualquer custo. Entenda, o prazer da mulher
por ela mesma não estava liberado, era permitido apenas para a
reprodução (para liberar o tal esperma feminino) e masturbar-se
era pecado. A primeira pessoa no mundo ocidental que escreveu
sobre clitóris foi o anatomista Ronaldo Columbus (no século XVI)
e chamou o órgão de “cidade do amor”. Antes e depois dele,
alguns outros homens comentaram sobre a genitália da mulher,
porém sempre comparando nossos corpos com os masculinos e
sustentando a ideia de que nossa vulva era um “pênis triste”, um
órgão masculino incompleto, defeituoso ou inferior. É por essas e
outras que, para descontrair, gosto de falar “A clitóris”, mesmo
sabendo que o certo é “O clitóris”, sujeitando a palavra ao órgão.
Mas minha vulva é meio anarquista, então, gosto de falar
“minha clitóris” e não “meu clitóris”.
Entre os séculos XIX e XX (século XX, minas, tipo, ontem!) o
clitóris ainda era tímido na Gray’s Anatomy e o que corroborou
muito para isto foi o médico Van Beneden descobrir, em 1875,
que gravidez nada tinha a ver com o prazer da mulher. Ou seja,
se o clitóris não era mais útil à reprodução, então não era mais
necessário falar sobre ele. Aliás, um tal Dr Baker Brown, em
Londres, apresentou à sociedade, a hipótese de mulheres serem
‘’nervosas e histéricas’’ por culpa do clitóris, portanto, o mesmo
deveria ser cortado, prática que perdurou até a década de 1920.
Então, imagina a cena: a mulher emite uma opinião qualquer
em casa, o marido leva ao médico e diz “doutor, essa mulher
está histérica” e o médico responde “ok, vamos cortar o clitóris
dela e logo ela ficará calminha’’.
Precisou passar todo o século XX para uma anatomista mulher
indignar-se, claro, resolver colocar a mão no clitóris e
desvendá-lo. Hellen O’Connell descobriu que o órgão pode chegar
até oito centímetros, que apresenta o dobro de terminações
nervosas de um pênis e, o melhor, ele está associado a todo o
organismo feminino. Ou seja, se esse pequeno órgão faz ligação
com todo o nosso corpo, isso significa que o prazer proporcionado
por ele interfere, positivamente, em nossa saúde física, mental
e emocional. É melhor que Rivotril! Por isso, iniciei essa trilogia
com o tema masturbação feminina, já que algumas cientistas
começam a apontar essa prática como um hábito saudável
para todas nós. Moça, seu clitóris tem poder! No próximo e
último artigo da Trilogia do Clitóris, veremos os benefícios
da masturbação autônoma feminina, além de práticas atuais
sobre o tema, desenvolvidas por mulheres ao redor do mundo.
*A prática da retirada do clitóris, apesar de ser considerada
um ato contra a dignidade da pessoa humana, ainda é
praticada em algumas partes do mundo por questões religiosas
ou estéticas.
Palmira Margarida é historiadora e atualmente é doutoranda na UFRJ.
Pesquisa sobre neurociências, os cheiros e as emoções. Estuda
também neurobiologia das plantas e é a pisciana mais ariana de que se
tem conhecimento. Descende de italianos e adora uma massa,
mas fala sem gesticular. Ama viajar e captar os aromas das trilhas,
das culturas e das ideias. Está em busca do profundo perfume do Ser.
Escreve neste espaço às quintas-feiras. Para informações sobre
seu trabalho com aromas na Casa Alquímica, entre em contato
pelo e-mail:palmira.margarida@revistavertigem.com
sexta-feira, 15 de maio de 2015
REFLEXÃO PARA O DIA DA FAMÍLIA
A Família Sagrada
Suponho que ninguém mais duvide de que aquela família representada no comercial de margarina, perfeita e harmônica, não se encontra na Bíblia. Muito ao contrário: os exemplos de composição familiar que encontramos nas páginas das Sagradas Escrituras não são nada idealizados.
Nem mesmo a chamada “Sagrada Família” (de nosso Senhor Jesus Cristo) se salva. Começa que Maria engravidou antes de se casar. Não muito depois de Jesus completar 12 anos, pelo que se sabe, José morre. Desde então, a família sagrada passou a se constituir de uma viúva e seus órfãos.
Jesus também não se parece lá muito com o filho queridinho, do tipo que toda mãe gostaria ter. Alguns episódios até nos fazem pensar que Jesus bem mereceria umas boas palmadas. Certa ocasião, numa festa de casamento, sua mãe lhe pede para ajudar numa situação constrangedora, porque se acabara um dos principais elementos do cardápio da festa. Jesus lhe dá uma resposta atravessada: “Mulher, que tenho eu contigo?” (cf. Jo 2).
Doutra feita, vieram avisar Jesus de que sua mãe, seus irmãos e irmãs estavam à porta, e queriam falar-lhe. Ele teria respondido que aqueles não eram seus verdadeiros familiares: “Quem são minha mãe, irmão e irmã, senão aqueles que ouvem a Palavra de Deus e a praticam” (cf. Mt 12.48-49, Mc 3.33-34 e Lc 8.20-21). Ainda insinua que aqueles à porta não ouvem nem praticam a Palavra de Deus. Esse jeito de falar não é exatamente o que chamaríamos de gentil.
A Bíblia não esconde esses conflitos e tensões familiares, talvez para nos confortar e tranquilizar em relação ao fato de que tampouco nossas famílias são perfeitas.
No entanto, há muito a aprendermos com a “Família Sagrada”. Por essa razão, gostaria de tomar como referência para nossa reflexão o relato de Lucas 2.40-52:
Crescia o menino e se fortalecia, enchendo-se de sabedoria; e a graça de Deus estava sobre ele. Ora, anualmente iam seus pais a Jerusalém, para a Festa da Páscoa. Quando ele atingiu os doze anos, subiram a Jerusalém, segundo o costume da festa. Terminados os dias da festa, ao regressarem, permaneceu o menino Jesus em Jerusalém, sem que seus pais o soubessem. Pensando, porém, estar ele entre os companheiros de viagem, foram caminho de um dia e, então, passaram a procurá-lo entre os parentes e os conhecidos; e, não o tendo encontrado, voltaram a Jerusalém à sua procura. Três dias depois, o acharam no templo, assentado no meio dos doutores, ouvindo-os e interrogando-os. E todos os que o ouviam muito se admiravam da sua inteligência e das suas respostas. Logo que seus pais o viram, ficaram maravilhados; e sua mãe lhe disse: Filho, por que fizeste assim conosco? Teu pai e eu, aflitos, estamos à tua procura. Ele lhes respondeu: Por que me procuráveis? Não sabíeis que me cumpria estar na casa de meu Pai? Não compreenderam, porém, as palavras que lhes dissera. E desceu com eles para Nazaré; e era-lhes submisso. Sua mãe, porém, guardava todas estas coisas no coração. E crescia Jesus em sabedoria, estatura e graça, diante de Deus e dos homens.
Este episódio tem uma moldura literária: “Crescia o menino e se fortalecia, enchendo-se de sabedoria; e a graça de Deus estava sobre ele” (v. 40) e “crescia Jesus em sabedoria, estatura e graça, diante de Deus e dos homens” (v. 52). O que nos permite inferir que esta é a missão da família: Possibilitar o crescimento dos seus integrantes em sabedoria, estatura e graça!
O texto bíblico em questão nos oferece ainda ótimas instruções a respeito de como a família chega a cumprir essa missão.
A importância das solenidades cíclicas
Nos versos 41 e 42 lemos: “Anualmente iam a Jerusalém, para a Festa da Páscoa. Quando ele atingiu os doze anos, subiram a Jerusalém, segundo o costume da festa” (vs. 41-42).
Destaquei as palavras “anualmente”, “festa” e “costume”, para evidenciar a importância das solenidades cíclicas na formação das novas gerações. Comemorar reiteradamente certas datas e ocasiões, longe de serem consideradas tolas repetições, ou algum tipo de paganismo, são, sim, fundamentais para a construção da nossa identidade como indivíduo e como povo. Acontecimentos como esses nos conferem o que chamamos “cultura”.
Encarar essas solenidades como “festa” é outro dado significativo. Aprender uma cultura não deve ser penoso ou desagradável, mas ocasião de deleite e prazer. “Costume” é outro elemento fundamental: não há aprendizado sem rotina, repetição, inculcação. É importante observar que “costume” nunca é mera repetição. Toda vez que tornamos a celebrar (a Páscoa, o Natal, o Pentecostes…) nunca repetimos, simplesmente, antes ressignificamos, presentificamos, atualizamos o sentido dessas solenidades. A criança que celebra a Páscoa aos 12 anos de idade terá uma compreensão diferente da que teve quando celebrou a mesma festa aos 5, ou aos 8 anos, ou da que terá aos 50 ou 60.
(Note-se, também, a significativa contribuição das viagens e deslocamentos na formação de identidade. É conhecendo pessoas, topografias, hábitos diferentes dos nossos que teremos melhores condições de dimensionar e significar o que nos é próprio. Não há identidade sem alteridade!)
A importância da autonomia
O episódio dramático da “perda” do menino pelos pais não nos ensina somente que precisamos ficar atentos aos nossos filhos para não perdê-los de vista em meio à multidão…
Dá-nos, mais que isso, uma grande lição sobre autonomia, e revela de uma maneira surpreendente o quanto nós, pais, tendemos a subestimar nossas crianças. Os pais pensavam encontrar-se o menino entre os conhecidos. Nessas ocasiões, sempre se viajava em grupo, junto com parentes e vizinhos. Seria normal esperar que estivesse entre seus amiguinhos, primos, irmãos… brincando… Quem haveria de supor que ele estaria interessado em algo mais do que brincadeiras?
Não há crescimento saudável sem a experiência da autonomia. Crescer é um processo contínuo rumo à independência. Para alguns pais isso traz angústia e sofrimento. Mas aqueles que superprotegem seus filhos, que os sufocam com vigilância excessiva, os impedem de crescer saudavelmente e causam-lhe danos irreparáveis.
A importância do diálogo com os especialistas
As crianças gostam, sim de brincar, mas há algo que lhes é irresistível: o desejo de aprender. Três dias depois, Maria e José finalmente encontraram Jesus “no templo, assentado no meio dos doutores, ouvindo-os e interrogando-os. E todos os que o ouviam muito se admiravam da sua inteligência e das suas respostas” (vs. 46-470).
Jesus interagia com os doutores: “ouvia”, “interrogava” e “respondia”. Eu já havia escrito em outro texto que é uma pena que já não se façam muitos doutores como esses do tempo de Jesus. Na maioria das vezes os especialistas não têm paciência pra conversar com as crianças. No máximo estariam dispostos a discursar para elas, porque acham que não têm o que aprender com elas. Aqueles doutores ficaram admiradíssimos com a inteligência e as respostas de Jesus como qualquer um de nós ficaria, se nos dedicássemos a ouvir com atenção as nossas crianças.
Já dizia o jagunço Riobaldo, personagem de Guimarães Rosa, no Grande Sertão: Veredas: “Mestre não é quem sempre ensina, mas quem, de repente, aprende.”
Porque é assim que se aprende: no encontro de experiências entre pessoas diferentes. Ambas as gerações, a dos jovens e a dos antigos, têm perguntas importantes a fazer umas às outras, e podem oferecer respostas igualmente relevantes. Mas isso só será possível se ambos se dispuserem ao diálogo: os mais velhos e os mais jovens, juntos, conversando… que acontecimento admirável!
A importância do enfrentamento honesto dos conflitos entre as gerações
Quando os pais e o menino perdido se acham, rola um clima tenso: “Logo que seus pais o viram, ficaram maravilhados; e sua mãe lhe disse: Filho, por que fizeste assim conosco? Teu pai e eu, aflitos, estamos à tua procura. Ele lhes respondeu: Por que me procuráveis? Não sabíeis que me cumpria estar na casa de meu Pai? Não compreenderam, porém, as palavras que lhes dissera. E desceu com eles para Nazaré; e era-lhes submisso” (vs. 48-51).
Há um misto de emoções, sentimentos e reações: admiração, aflição, angústia e, certamente, alívio pelo reencontro, da parte dos pais; certa indiferença, inconformismo e petulância, da parte do filho.
Os pais “não compreenderam as palavras que Jesus lhes dissera” (v. 50). Essa não é a exceção, mas a regra no convívio entre as diferentes gerações: desentendimento, confronto, contenda, contrariedade, controvérsia, desacordo, desajuste, desamor, desarmonia, desavença, desconcerto, diferença, dificuldade, discordância, discórdia, discrepância, discussão, disputa, dissensão, dissentimento, dissidência, dissintonia, divergência, hostilidade, inadequação, incompatibilidade, inconformidade, inimizade, litígio, luta, mal-entendido, malquerença, oposição… e assim por diante.
Se assim foi entre Jesus e seus pais, por que não seria também conosco? Ajuda, no entanto, saber que é assim, e que temos que lidar com isso da melhor forma. No episódio com Jesus, ambos, os pais e o menino, puderam expressar-se francamente sobre seus sentimentos. Os pais falam da sua angústia, e o filho explica a sua perspectiva das coisas.
É importante notar, no entanto, que, na sequência, o menino se submete à autoridade dos pais e volta para Nazaré com eles. Os conflitos e os desentendimentos são inevitáveis, mas o convívio familiar tem a primazia. Há ocasiões em que aos filhos se dá liberdade e autonomia, mas há outras em que não resta alternativa a não ser a da “submissão”. Não há como deixar a critério da criança se ela quer ou não tomar vacinas, usar o cinto de segurança, ou coisas do gênero. Algumas dessas decisões são inegociáveis, e sábios e felizes aqueles que conseguem distinguir essas das transigíveis.
Concluindo…
A mãe de Jesus, “porém, guardava todas estas coisas no coração” (v. 51). Que bonito costume têm os antigos de guardar no coração as memórias significativas de seus encontros e desencontros com as novas gerações. Quanto aprendizado, quanto crescimento, quanto amadurecimento para ambos!
Quando as novas gerações têm o privilégio de conviver com pais, como José e Maria foram para Jesus, e com Doutores, como aqueles que lhe dispensaram tempo e atenção qualitativos, o resultado é maravilhoso:
“E crescia Jesus em sabedoria, estatura e graça, diante de Deus e dos homens” (v. 52).
Reformulemos a ordem dos fatores para fins didáticos. Primeiro, crescimento em estatura é o resultado do cuidado com o corpo, com a saúde, com a alimentação, a higiene… quesitos básico para viabilizar todos os demais tipos de crescimento. Podemos falar, então, do crescimento em sabedoria, que é o resultado do cuidado intelectual e espiritual, que faz com que as informações se transformem em conhecimento, e o conhecimento em atitudes dignas e honradas. Finalmente, chegamos ao crescimento em graça, que é o mais sublime de todos, porque é a expressão de que quando crescemos, não crescemos somente para nós mesmos, mas crescemos para “Deus” e para os “homens”.
Em outras palavras, é para isso que crescemos, para estarmos digna e honradamente diante de Deus e do nosso semelhante, preparados para amá-los e sermos amados por ambos.
Luiz Carlos Ramos
(Para a Revista Gaivota Metodista, em maio de 2012)
(Para a Revista Gaivota Metodista, em maio de 2012)
quinta-feira, 8 de janeiro de 2015
21 hábitos das pessoas extremamente felizes
20 de março de 2014
Martin Seligman, o pai da psicologia positiva, teoriza que apesar de 60% da felicidade ser determinada pela genética e pelo ambiente os 40 restantes cabem a nós.
Em sua palestra na TED de 2004, Seligman descreveu três tipos de vidas felizes: a vida de prazeres, na qual você enche sua vida com quantos prazeres puder, a vida do envolvimento, em que você encontra a vida no trabalho, em ser pai, no amor e no lazer, e a vida que tem sentido, aquela que “consiste em saber quais são suas maiores forças e, também, em saber usá-las para servir e fazer parte de algo maior que você mesmo”.
Após explorar o que traz a satisfação definitiva, Seligman se disse surpreso. Buscar o prazer, determinaram as pesquisas, não contribui quase nada para a satisfação duradoura. O prazer é o “chantilly e a cereja” que dão um toque adocicado para as vidas baseadas na procura do sentido e do envolvimento.
Por mais que conceitos como sentido e envolvimento possam parecer grandiosos, as pessoas felizes têm hábitos que podem fazer parte do seu dia a dia e que podem compor o quadro total do êxtase. Pessoas felizes têm certas inclinações que ajudam na busca do sentido – e essas inclinações também funcionam como motivação.
1. Elas se cercam de pessoas felizes
A alegria é contagiosa. Os pesquisadores do Estudo do Coração de Framingham, que investigaram a propagação da felicidade ao longo de 20 anos, descobriram que aqueles que estão cercados por pessoas felizes “têm chance maior de felicidade no futuro”. É um motivo mais que suficiente para se livrar dos amigos depressivos e passar mais tempo com gente otimista.
2. Elas não sorriem sem motivo
Mesmo que você não se sinta tão disposto, cultivar pensamentos felizes – e sorrir por causa deles – pode contribuir para sua felicidade e fazer de você uma pessoa mais produtiva, de acordo com um estudo publicado no Academy of Management Journal. É importante sorrir genuinamente: o estudo revelou que fingir um sorriso quando suas emoções, na verdade, são negativas pode piorar seu humor, em vez de melhorá-lo.
3. Elas têm o poder de se recuperar
De acordo com o psicólogo Peter Kramer, o oposto da depressão não é a felicidade, mas sim a resiliência, ou seja, a capacidade de se recuperar. Pessoas felizes sabem se levantar depois de um fracasso. A resiliência é como uma camada de espuma amortecedora para as inevitáveis dificuldades que nós humanos vamos enfrentar. Como diz o provérbio japonês: “Caia sete vezes e levante oito”.
4. Elas tentam ser felizes
Isso mesmo – é simples assim: simplesmente tentar ser feliz pode melhorar seu bem-estar emocional, de acordo com dois estudos recém-publicados no Journal of Positive Psychology. Aqueles que tentam ativamente se sentir felizes relatam os maiores níveis de humor positivo, uma defesa do argumento que diz que você pode ser feliz se tiver pensamentos felizes.
5. Elas estão atentos às coisas boas
É importante comemorar as grandes conquistas, aquelas que exigem muito esforço, mas as pessoas felizes também dão atenção às vitórias menores. “Quando prestamos atenção às coisas que dão certo, temos várias recompensas ao longo do dia”, disse Susan Weinschenk ao Huffington Post. “Isso ajuda a melhorar nosso humor.” E, como explica Frank Ghinassi, estar atento às coisas que dão certo (mesmo que seja simplesmente o fato de terem servido o café como você gosta) ajuda a ter uma sensação de conquista ao longo do dia.
6. Elas apreciam os pequenos prazeres
Um sorvete de casquinha com uma espiral perfeita. Um cachorro feliz da vida. As pessoas felizes conseguem apreciar esse tipo de prazer cotidiano. Encontrar sentido nas pequenas coisas e serem gratos por tudo o que eles de fato têm, por acharem que está associado à ideia geral de felicidade.
7. Elas dedicam parte de seu tempo para doações
Mesmo que o dia tenha só 24 horas, pessoas positivas usam parte desse tempo para fazer bem a outras, o que, em contrapartida, faz bem a elas mesmas. Uma pesquisa de longo prazo chamada American’s Changing Lives encontrou vários benefícios ligados ao altruísmo: “O trabalho voluntário faz bem para a saúde física e mental. Pessoas de todas as idades que fazem trabalho voluntário são mais felizes e têm saúde melhor e menos depressão”, relatou Peggy Thoits, líder de um dos estudos.
Essas pessoas também experimentam o que os pesquisadores chamam de “o barato de ajudar”, um estado eufórico observado nas pessoas envolvidas em atos de caridade. “É um ‘barato’ literal, como aquele induzido por drogas”, escreve Christine L. Carter. “O ato de fazer uma doação financeira ativa o centro de recompensas no nosso cérebro responsável pela euforia mediada pela dopamina.”
8. Elas se permitem perder a noção do tempo (e às vezes sem querer)
Quando você está imerso numa atividade que é ao mesmo tempo desafiadora, revigorante e significativa, você está experimentando um estado mental chamado de “fluidez”. Pessoas felizes buscam esse “entusiasmo” ou “empolgação”, o que diminui a inibição e promove sensações associadas ao sucesso. Como explicado em Pursuit-of-happiness.org, “para que haja ‘fluidez’ é preciso encarar a atividade como voluntária e prazerosa (intrinsicamente motivadora), e ela também tem de exigir habilidade e ser desafiadora (mas não muito), com um objetivo final claro”.
9. Elas trocam o bate-papo por conversas mais profundas
Nada errado com aquele papo de vez em quando, mas sentar para conversar sobre as coisas que importam é importante para curtir a vida. Um estudo publicado na Psychological Science revelou que aqueles que conversam profundamente em vez de ficar batendo papo se sentem mais satisfeitos.
“Queria ter tido a coragem de dizer o que sentia” é um dos cinco principais arrependimento de quem está morrendo – um sentimento que indica que talvez desejemos ter passado menos tempo falando da chuva e mais tempo falando do que realmente nos toca.
10. Elas gastam dinheiro com outras pessoas
Talvez o dinheiro compre felicidade. Um estudo publicado na Science apontou que investir o dinheiro em outras pessoas tem mais impacto na felicidade que gastar consigo mesmo.
11. Elas fazem questão de ouvir
“Ouvir desenvolve a capacidade de absorver conhecimento em vez de bloquear o mundo com suas próprias palavras ou sua mente distraída”, escreve David Mezzapelle, autor de Contagious Optimism (otimismo contagioso, em tradução livre). “Você também demonstra confiança e respeito pelos outros. Conhecimento e confiança são provas de que você é seguro e positivo e, portanto, irradia energia positiva.” Saber ouvir é uma qualidade que reforça os relacionamentos e leva a experiências mais satisfatórias. Um bom ouvinte pode sair de uma conversa sentindo que sua presença serviu para alguma coisa, uma experiência que está relacionada ao bem-estar.
12. Elas preferem conexões pessoais
Mandar um SMS ou uma mensagem de Facebook para seus amigos é rápido e conveniente. Mas gastar dinheiro numa passagem para ver sua pessoa predileta do outro lado do país tem peso quando se trata do seu bem-estar. “Há uma necessidade profunda do senso de ‘participação’ que vem das interações pessoais com amigos”, diz John Cacciopo, diretor do Centro de Neurociência Social e Cognitiva da Universidade de Chicago. As mídias sociais, por mais que nos mantenham em contato, não nos permitem o contato físico, o que ajuda a controlar a ansiedade.
13. Elas olham para o lado bom
O otimismo melhora a sua saúde de várias maneiras, incluindo a redução do estresse, a tolerância à dor e a longevidade para aqueles com problemas de coração. Se você escolher olhar para o lado bom das coisas, também estará escolhendo a saúde e a felicidade.
Seligman resumiu o que talvez seja a principal característica dos otimistas em seu livro mais elogiado, Learned Optimism (aprendendo o otimismo, em tradução livre):
A característica que define os pessimistas é que eles tendem a acreditar que as coisas ruins vão durar muito tempo, vão minar tudo aquilo que eles fazem, e é tudo culpa deles. Os otimistas, quando confrontados com os mesmos problemas, pensam da maneira oposta. Eles tendem a acreditar que a derrota é só um retrocesso temporário e que as causas estão confinadas àquele caso em particular. O otimista acredita que a derrota não é culpa sua: as circunstâncias, o azar ou outras pessoas têm culpa. Essas pessoas não se abalam com derrotas. Confrontadas com problemas, elas os encaram como desafios e tentam de novo, com mais empenho.
14. Elas gostam de uma boa seleção musical
A música tem poder. Tanto que ela pode se comparar às massagens no quesito reduzir ansiedade. Em um período de três meses, o Instituto de Pesquisa de Saúde Grupal descobriu que pacientes que simplesmente ouviam música tinham uma redução nos níveis de ansiedade iguais àqueles que recebiam dez massagens de uma hora. Escolher as músicas certas é um fator importante, entretanto. Músicas tristes ou felizes podem afetar como vemos o mundo. Em um experimento, os participantes tinham de identificar rostos tristes ou felizes enquanto ouviam música, e eram grandes as chances de que eles escolhessem rostos que combinassem com a música.
15. Elas se desplugam
Seja meditando, respirando fundo longe do computador ou deliberadamente se desconectando dos eletrônicos, desligar-se do nosso mundo hiperconectado tem vantagens comprovadas no que diz respeito à felicidade. Falar ao celular pode aumentar sua pressão arterial e seu nível de estresse. Ficar horas a fio diante de uma tela está ligado à depressão e à fadiga. A tecnologia não vai desaparecer, mas uma desintoxicação digital dá ao seu cérebro a oportunidade de se recuperar e se recarregar– e, mais que isso, isso pode aumentar sua resiliência.
16. Elas olham para o lado espiritual
Estudos apontam uma ligação entre práticas religiosas e espirituais e jovialidade. Para começar, hábitos importantes para a felicidade costumam ser valorizados na maior parte das convenções espirituais: expressar gratidão, compaixão e caridade. E fazer as perguntas que importam ajuda a dar contexto e significado para as nossas vidas. Um estudo de 2009 aponta que crianças que achavam que suas vidas tinham um propósito (promovido por conexões espirituais) eram mais felizes.
A espiritualidade oferece aquilo a que o sociólogo Émile Durkheim se referiu como “tempo sagrado”, um ritual de desconexão que leva a momentos de reflexão e calma. Como escreve Ellen L. Idler em The Psychological and Physical Benefits of Spiritual/Religious Practices (os benefícios psicológicos e físicos das práticas espirituais/religiosas, em tradução livre):
O tempo sagrado significa um tempo longe do “tempo profano” no qual levamos a maior parte das nossas vidas. Um período diário de meditação, a prática semanal de acender as velas do shabat, ou ir a cultos ou missas, ou um retiro anual num lugar isolado, quieto e solitário: todos são exemplos de garantir um tempo longe da correria das nossas vidas cotidianas. Períodos de descanso e folga do trabalho e das demandas do dia a dia ajudam a reduzir o estresse, fator primordial nas doenças crônicas que ainda são a principal causa de morte na sociedade ocidental. Experiências transcedentais religiosas e espirituais têm efeito positivo, restaurador e curativo, especialmente se são “embutidas”, por assim dizer, no nosso ciclo de vida diário, semanal, sazonal e anual.
17. Elas priorizam o exercício
Um sábio, mas fictício, estudante da Faculdade de Direito de Harvard disse certa vez: “Exercício gera endorfinas. Endorfinas te fazem feliz.” Já se demonstrou que as endorfinas aliviam sintomas de depressão, ansiedade e estresse, graças aos vários químicos cerebrais que são liberados para amplificar as sensações de felicidade e relaxamento. Além disso, um estudo publicado pelo Journal of Health Psychology indica que o exercício melhora a percepção que as pessoas têm do próprio corpo – mesmo que elas não tenham perdido peso ou tido qualquer tipo de melhora aparente.
18. Elas gostam do ar livre
Quer se sentir vivo? Uma dose de 20 minutos de ar fresco significa uma sensação de vitalidade, segundo vários estudos publicados no Journal of Environmental Psychology. “A natureza é o combustível da alma”, diz Richard Ryan, autor principal de vários dos estudos. “Quando nos sentimos com pouca energia muitas vezes tomamos um café, mas as pesquisas sugerem que o contato com a natureza é muito mais eficaz.” E, mesmo que todo mundo prefira o café quente, é melhor tomar nossa dose de ar livre em temperatura morna: um estudo sobre o clima e a felicidade indicou que a temperatura ótima para a felicidade é 13,8 graus.
19. Elas passam tempo na cama
Acordar com o pé esquerdo não é um mito. Quando faltam horas de sono, provavelmente falta também clareza e sobram bom humor e decisões erradas. “Uma boa noite de sono pode ajudar e muito a reduzir a ansiedade”, disse Raymond Jean, diretor de medicina do sono e diretor-associado de cuidados críticos do hospital St-Luke’s-Roosevelt, ao Health.com. “Um bom sono traz estabilidade emocional.”
20. Elas gargalham
Você já ouviu essa: a gargalhada é o melhor remédio. Se você estiver tristonho, pode ser verdade. Uma boa risada libera químicos no cérebro que, além de dar aquele barato, nos preparam melhor para tolerar a dor e o estresse. E você pode até trocar um dia na academia por uma sessão de piadas (talvez). “A resposta do corpo a repetidas risadas é similar à dos exercícios”, diz Lee Berk, líder de um estudo de 2010 focado no efeito das risadas no corpo. O mesmo estudo aponta que certos benefícios dos exercícios, como um sistema imune saudável, apetite controlado e bons índices de colesterol, podem ser alcançados com gargalhadas.
21. Elas dão passadas largas
Já reparou quando alguns amigos estão andando nas nuvens? Tem tudo a ver com a caminhada, segundo uma pesquisa conduzida por Sara Snodgrass, uma psicóloga da Florida Atlantic University. No experimento, Snodgrass pediu que os participantes do estudo caminhassem por três minutos. Metade deles tinha de dar passadas longas, mexendo os braços e mantendo a cabeça levantada. Eles relataram estar mais felizes depois do passeio que o outro grupo, que deu passadas curtas, olhando para o chão.
por Kate Bratskeir, via Huffington Post
Publicado originalmente em
por Kate Bratskeir, via Huffington Post
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