Carlos Drumond de Andrade
Não escreverei versos chorosos cantando tristezas infinitas,
amores impossíveis, saudades dolorosas,
paixões trágicas e não correspondidas.
Tenho a vocação para a felicidade.
Ser feliz não me traz sentimento de culpa.
Não preciso da tristeza para
justificar a inutilidade da vida.
Não preciso morrer e ir ao céu para
encontrar a felicidade.
Quero-a e tenho-a neste espaço terreno do aqui e do agora.
A felicidade, tal e qual, o amor, está dentro de mim,
e transborda em ternuras, em melodias, em carinhos,
em alegrias, em cantos e encantos.
Sou feliz e não preciso me justificar.
Sorrio sem ver passarinho verde.
Não tenho medo de ser feliz .
Faço minha estrela brilhar sem receio dos encontros,
desencontros, encantos e desencantos que o amor me diz.
Contrariedades? Eu as tenho! E quem não as tem na vida secular?
Escassez de dinheiro? Nem é bom falar.
Amores não correspondidos? Separações? Rejeições?
Saudades incuráveis?
Carinhos reprimidos, ternuras guardadas,
sem a contra parte do outro?
Eu tenho aos montões.
Sou o rei das perdas necessárias ao meu crescimento.
Contudo quem não soube a sombra não sabe a luz.
E num livro de matemática existencial
juntei todos esses problemas
insolúveis, com as respostas nas últimas páginas.
Mas pra que me debruçar sobre eles,
procurando a solução se a própria
vida me conduz a resposta final?
Sem medo de ser feliz, vou por aqui e por ali...
Por onde os caminhos, as trilhas,
os atalhos me levarem, traçando meu rumo.
Às vezes com alguma tristeza.
Mas quem disse que felicidade é o contrário de tristeza?
Tristeza é só uma momentânea falta de alegria!
É, amiga, amanhã é sempre um novo dia,
e quando a infelicidade passar
por aqui, minhas malas estarão prontas para eu ir por ali.