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quinta-feira, 1 de novembro de 2007

O LOGRO DAS ORQUÍDEAS


Vera Chvatal

Orquídeas! Flores maravilhosas, de uma beleza selvagem, originariamente, elas nasciam e cresciam nas florestas. No meio das matas, em galhos de árvores. Por isso eram chamadas de parasitas. Acreditava-se que elas viviam grudadas nos galhos para sugar a seiva e tirar o seu alimento das árvores onde se hospedavam.

Com o desenvolvimento da botânica, viu-se que não era bem assim. As orquídeas simplesmente apoiavam-se nos galhos das árvores. Em seu processo evolutivo, elas se especializaram em sobreviver sobre outras plantas, geralmente árvores, sem prejudicá-las.

Esse processo chamado epífita, provavelmente, ocorreu para que a orquídea pudesse ter melhores condições de sobreviver. No topo das árvores elas conseguem mais luz, mais ventilação e ficam menos expostas a inundações, queimadas e predadores do que no solo. Dá para imaginar uma orquídea crescendo no chão e sendo pisoteada? Não! Seria um sacrilégio grande demais. E também porque no alto das árvores elas ficam mais visíveis para que os pássaros e insetos possam polinizá-las ajudando a procriação.

Porém, gosto de imaginar que as orquídeas assim o fazem para lá de cima exibir sua beleza pela mata afora. Afinal, orquídeas são flores altivas, misteriosas, elegantes. Se flores são sensuais, a orquídea, certamente, é a rainha da sensualidade. E seu trono é no alto das árvores. De onde pode ser vista e largamente admirada.

Conta a lenda que numa cidade chamada Anam vivia uma formosa jovem chamada Hoan-Lan, que se divertia com o sofrimento de seus numerosos admiradores. Tanto que, muitos deles acabaram com a própria vida após terem sido desprezados por ela. Um dia, o poderoso deus das cinco flechas resolveu castigar tanta maldade e fez com que a volúvel jovem se apaixonasse perdidamente pelo formoso Mun-Say que, no entanto, não queria saber dela. E Hoan-Lan, no seu leito de nácar e sedas bordadas, passou a sofrer com a indiferença do amado.
Em uma noite escura a jovem foi procurar o deus da montanha de Tan-Vien, implorando-lhe para curá-la. Mas o gênio não quis atendê-la, por achar o castigo merecido. Na saída ela encontrou uma bruxa de pés de cabra que lhe prometeu ajudá-la a vingar-se de Mun-Say, em troca de sua alma. E prometeu que ele nunca mais amaria uma mulher. Hoan-Lan aceitou o contrato. A bruxa fez um feitiço com uma folha de palmeira e enterrou-a, pronunciou umas palavras desconhecidas e desapareceu. E Hoan-Lan voltou para casa.

Um dia, vendo de longe seu adorado Mun-Say, ela correu para abraçá-lo. Mas, ao toque de seus braços o jovem transformou-se numa árvore de ébano. E, nesse exato momento, apareceu a bruxa dizendo que ia cobrar o trato que fizeram. Soluçando a jovem caiu aos pés da árvore pedindo perdão e implorando compaixão. Mas a árvore não respondia.
E ela ficou ali parada durante muito tempo, até que por lá passou um gênio que se compadeceu de sua sorte. Colocando um dedo sobre a testa de Hoan-Lan disse-lhe que ela procedera mal, mas a dor havia purificado sua alma. Portanto, estava perdoada. E, antes que a bruxa viesse buscar-lhe a alma, ela seria transformada em uma flor meio esquisita, requintada, dando a impressão de que a sua vida fora maldosa. Quem visse suas pétalas logo saberia que ela teve um espírito caprichoso, volúvel e cruel. Preocupada apenas com a elegância. E concedeu-lhe um último bem: -Não te separarás do bem que adoras e viverás de tua seiva, parasita do teu amado.

Enquanto o gênio falava, a túnica rósea de Hoan-Lan foi empalidecendo e tomando uma delicada cor lilás. Os olhos da jovem brilhavam como pontos de ouro e suas carnes tomaram a tonalidade do nácar. Os seus formosos braços enrolaram-se na árvore, numa derradeira súplica. E ela se transformou numa orquídea.
Mas, orquídeas gostam de calor. O Divino Criador as fez nascer nas florestas úmidas, de clima tropical. O frio as apavora, temem morrer. Então, o criador humano coloca as mudas em estufas com baixas temperaturas durante certo tempo. "Apavoradas", elas produzem botões para dar uma última florada antes de morrer e deixar suas sementes para novas mudas surgirem.

Não é fantástico? Temendo desaparecer sem deixar descendência elas produzem flores, com novas sementes, para imortalizar a espécie. E o ciclo forçado repete-se através da exposição ao frio intenso e depois ao calor. Esse é o logro das orquídeas...

2 comentários:

Karin disse...

Oi mãe, muito bonito, gostei !!!

um beijo bem grande,

Karin.

verapsico disse...

Oi filha!
Que bom que gostou e obrigada pela postagem
Bjs saudosos, mamãe