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segunda-feira, 21 de julho de 2008

ENTRE DEUS E O DESEJO: diálogo entre psicanálise e religião



Vera Chvatal

Para o filósofo Feuerbach, os deuses são o desejo do ser humano pensado como reais, na medida em que Deus é a nossa ânsia de felicidade satisfeita na fantasia.
Se não tivéssemos desejos, não teríamos nem religião nem deuses, apesar da fantasia e do sentimento.
Isso nos leva a questionar sobre a natureza e a função do ser humano.
Quem é o ser humano e qual é a sua finalidade?

Pensando a partir de três dimensões fundamentais que o caracterizam, a dimensão cultural, a dimensão psicológica e a dimensão biológica podemos arriscar duas definições.
A primeira apresenta-o como um ser criado por Deus e serve para honrar, adorar e glorificar a Deus.
E a segunda afirma-o como um ser biopsicossocial e serve para preservar a espécie.
Ao integrar-se à cultura, adquire identidade própria e, agora, como ser da cultura deve preservá-la.

Estamos falando, portanto, de duas realidades: a realidade do sagrado/divino e a realidade do humano/profano.
A primeira realidade, a do mundo do sagrado/divino, baseada na crença e na imaginação, assegura que os seres humanos provêm de Deus.
E a religião é o caminho que os direciona para o futuro que os aguarda, que é o da felicidade eterna.
Enquanto que a segunda realidade, a do mundo humano/profano, baseada na experiência e na ciência afirma que o ser humano provém da natureza e o seu futuro é o retorno à natureza.

Filósofos de todos os tempos expressaram-se sobre a religião, termo este entendido como re-ligação, sutura, vinculação, como a mais antiga manifestação do espírito (alma, psique) humano.
E filosofar, segundo Merleau Ponty, é reaprender a ver o mundo.

Para o filósofo Heidegger, o ser humano, a partir do momento em que conquistou a consciência de si e do mundo que o rodeia, deu-se conta de sua ignorância em relação à vida e à morte.
E ao tomar conhecimento de sua incapacidade de compreender, dominar e resolver os mistérios da natureza experimentou o desconforto de pensar.
Portanto, o fenômeno religioso surgiu como a expressão de um anseio fundamental do ser humano de se situar no mundo com algum sentido e alguma direção.
E desse anseio fundamental eclodiu a consciência mítica, como uma primeira estrutura para explicar a realidade circundante, dando um sentido e uma direção para a vida, o mundo e o cosmo através dos mitos.

Para os povos primitivos, o mito é uma estrutura dominante que ajuda os seres humanos a não sucumbir às dores e aos sofrimentos da vida, na medida em que é uma intuição compreensiva da realidade.
Constituindo-se em uma forma espontânea de situar-se no mundo, o mito não tem a pretensão de explicar a realidade, mas sim a de acomodar e tranqüilizar o ser humano perante um mundo assustador.
Ainda hoje, no mundo contemporâneo, o mito faz parte de nossa existência cotidiana, como uma das formas do existir humano.
Entretanto, no desenvolvimento da cultura humana é praticamente impossível determinar um ponto onde o mito acaba e a religião começa.
Ao longo de sua história a religião permanece inextricavelmente ligada aos elementos míticos e repassada deles.

Assim sendo, podemos distinguir três fases na formação de deuses.
A primeira fase é caracterizada pela multiplicidade de deuses momentâneos, motivados pela emoção subjetiva, ainda marcada pelo medo.
Esses deuses não representam as forças da natureza e nem aspectos da vida humana.
São excitações momentâneas como a alegria, a inteligência, a decisão, etc., às quais se atribui o valor de deidade.
No mundo primitivo nada é natural, tudo é sagrado.

Na segunda fase, como a ação humana sobre o mundo se torna mais complexa, surge a divisão de trabalho e o sentimento de individualidade.
Assim, toda atividade humana ganha seu deus funcional para protegê-lo a cada momento.
Ao mesmo tempo o caráter existencial do mito leva o ser humano a criar ritos mágicos e a fé nesses rituais vai despertando o sentido de confiança em si mesmo.
Não mais se sentindo totalmente à mercê das forças naturais e sobrenaturais, o ser humano desempenha seu papel convicto de que tudo o que acontece no mundo natural depende, em parte, de seus próprios atos.

E, finalmente, a terceira fase caracterizada pelo surgimento de um deus pessoal é fruto do processo histórico que inclui o desenvolvimento da linguagem.
É um deus antropomorfizado que sofre e age como os humanos, cujo sentido ético suplanta o sentido mágico, convertendo a vida humana numa luta constante por amor à justiça.

Surgem as religiões monoteístas decorrentes das forças morais e que se concentram na questão do bem e do mal, ainda que de forma dicotômica.
A natureza passa a não mais ser abordada pelo lado emocional, mas sim pelo lado racional.
O divino deixa de ser enfocado pelos poderes mágicos e passa a ser abordado pelo poder de justiça.
E é pelo livre arbítrio que o ser humano entra em contacto com o sagrado e, ao dar a sua adesão ao bem, torna-se aliado da divindade, praticando o dever religioso.

A psicanálise e o pensamento religioso

Historicamente temos duas visões predominantes sobre o fenômeno religioso.
Uma dessas visões vê na religião um fator de retrocesso, alienação e neurose, uma vez que sendo pobre, doente, infantil, autoritária e viciosa impede o ser humano de viver e expressar-se em sua individualidade.
E outra visão vê a religião como depositária de valores éticos e espirituais, capaz de promover a libertação, crescimento e humanização do indivíduo.

A psicanálise é a ciência que investiga as raízes do comportamento humano, colocando em evidência a atitude emocional que o governa, porém, atenta aos valores que lhe são inerentes.
Assim, tudo o que levar o ser humano a se conservar escravo, dependente ou incapaz de buscar a liberdade e a realização é neurótico e, como tal, tendente ao empobrecimento e à capitulação.

Para Freud (1856-1939), o pai da psicanálise, a religião origina-se do sentimento de incapacidade do ser humano, confrontado com as forças da natureza e suas pulsões.
Nesse sentido, Deus seria uma invenção do homem, e a origem da atitude religiosa pode ser remontada, em linhas muito claras, até o sentimento de desamparo infantil.
A imagem de Deus emerge exclusivamente da relação do menino com o pai e é um precipitado dos conflitos edipinianos, com suas conseqüentes renúncias instintuais.
É no superego que vamos encontrar a imago de Deus, que substituiu e transformou a imago do pai.
As idéias religiosas não constituem precipitados de experiências ou resultados finais de pensamentos.
São ilusões, realizações dos mais antigos, fortes e prementes desejos da humanidade.

Bion (1897-1979), um psicanalista mais contemporâneo, ressalta que, via de regra, os psicanalistas têm-se revelado peculiarmente cegos para esse tópico da religião.
Quem quer que seja, relembrando o que sabe sobre a história da raça humana, pode reconhecer que as atividades religiosas são, quando nada, tão inegáveis quanto as chamadas atividades sexuais.

Mediante tanta contradição podemos nos perguntar como a psicanálise pode abordar o pensamento religioso?
Dois psicanalistas, Rizzuto em 1979 e Meissner em 1992 estudaram a formação e a dinâmica da representação de Deus no curso da existência, e a abordagem da experiência religiosa sensu lato.

Contrapondo-se à idéia de que os sentimentos religiosos são fundamentados em ilusão, eles tomaram como base o modelo transicional de Winnicott (1896-1971), o psicanalista que cunhou o termo transicionalidade, que vem do conceito de objeto e espaço.
Para Winnicott objeto transicional refere-se ao uso que o bebê e, posteriormente, a criança faz de um primeiro objeto como a ponta do lençol ou o ursinho ao qual são atribuídas qualidades tranqüilizadoras.
O espaço transicional é um espaço psíquico que não é nem interno nem externo ao bebê e/ou à criança, constituindo-se em uma zona intermediária entre o dentro e o fora.

Baseados nesses conceitos Rizzutto e Meisner afirmam que para a análise da experiência religiosa é preciso compreender que ilusão e realidade não se situam em planos opostos.
E nem ilusão e delírio convergem, necessariamente.
A ilusão não é erro, mesmo que possa ser uma falsa crença.
E sendo derivada do desejo – no que concordam com Freud – não é, necessariamente, falsa nem se coloca em contradição com a realidade.

Bonford, outro psicanalista da atualidade, contrapôs o conceito de Inconsciente e o conceito de Deus, da seguinte forma:

INCONSCIENTE / DEUS
Atemporalidade / Eternidade
Ausência de limitação / espacial/finitude Infinitude
Não contradição / Inefabilidade
Deslocamento/condensação / Indivisibilidade
Equivalência entre a realidade interna/externa / Ato puro

Desse modo, a matriz da idéia de Deus encontra-se na própria estrutura do inconsciente.
Isto é, na existência de uma “dimensão religiosa” que é própria da mente e que pode sofrer transformações no espaço da experiência transicional, mas que nunca deixará de estar presente em nosso viver.

A partir desse ponto de vista a experiência religiosa deveria ser abordada pela psicanálise como uma complexa rede de representações psíquicas que, longe de serem “ilusões” (produtos imaginativos que se colocam no lugar da realidade, na concepção corrente e deturpada do termo), constituem-se em importantes elementos para a estruturação do senso de identidade e da expansão mental.

A religiosidade, que é inerente ao ser humano, precisa ser encarada não apenas à luz de suas determinações infantis, mas como resultado de transformações de experiências vitais em processos abertos para ressignificações que são contínuas e evolutivas.
E a experiência psicanalítica situa-se diante da experiência religiosa, não como sendo fator redutor da mesma às fantasias que lhe deram origem, mas como possibilidade de reorganização e nova representação da imagem de Deus no universo subjetivo do indivíduo.

Leituras sugeridas
Aranha, M. L. de A., Martins, M. H. P. Filosofando – Introdução à Filosofia. São Paulo: Moderna, 1986.
Bion, W.R. Atenção e Interpretação. Rio de Janeiro: Imago, 1970.
Bonford, R. The attributes of God and the characteristics of the unconscious. Int. Rev. Psychoanal., 17:485-491. 1990.
Meissner, W.W. Religious thinking as transitional conceptualization. Psychoanal. Rew. 79:175-196. 1992.
Rizzuto, A. M. The Birth of the living God. Chicago: The Univ. of Chicago Press. 1979.
Winnicott, D. W. O Brincar e a Realidade. São Paulo: Imago, 1975.

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