Um passeio imperdível nestas férias de julho: conhecer o maior aquário do país.
Localizado na Rua Huet Bacelar, 407, Ipiranga, zona sul, São Paulo, SP., a intenção do Aquário de São Paulo é fazer crianças e adultos se sentirem, pelo menos por alguns instantes, no fundo do mar.
E cerca de 30 mil pessoas passam por lá todos os meses, para ver seus "bichinhos" preferidos, como o raro tubarão-branco, o estranho peixe-palhaço e os filhotes de jacarés albinos, considerados únicos em exposição no mundo.
O lugar, que completa quatro anos na quarta-feira (7), é o maior aquário do país e utiliza cerca de 2 milhões de litros de água. Lá, vivem 250 espécies de peixes.
Mas há espaço para mamíferos também, como o Thunder, um lobo-marinho, e o Tapajós, o gorducho peixe-boi.
Vá visitá-lo, é uma ótima pedida para as férias da criançada!
Neste
mundo secular em que vivemos, via de regra nos deparamos com liturgias vazias e
rituais mecânicos que não nos dizem nada. Nada transmitem, carecem de
significações, de veracidade. Pois, o que dá sentido e valor à liturgia e seus
ritos é o poder a eles conferidos pela imaginação.
A
liturgia não é, como muita gente pensa, somente uma variação no rito. O termo liturgia provém do grego clássico leitourghia e deriva da composição de laós que significa povo, e de ergon
que quer dizer obra. Traduzido literalmente, liturgia significava serviço prestado ao povo ou serviço prestado para o bem comum.
Na
Grécia antiga o termo referia-se à apresentação do coro no teatro, ao armamento
de um navio, ao acolhimento de visitantes por ocasião das festas nacionais,
etc. Enquanto que no Egito significava qualquer prestação pública de serviço.No Antigo Testamento, o termo liturgia
é utilizado para designar o serviço cultual do templo, realizado pelos
sacerdotes e levitas, que foi como o termo se popularizou. Por esse motivo, via
de regra, entende-se por liturgia o culto público e oficial instituído por uma
igreja, algo relacionado ao ritual.
Quanto
ao rito, este tem um sentido
religioso quando designa o conjunto de cerimônias em uso nas comunidades
religiosas, e um sentido antropológico quando se refere ao processo, de cunho
simbólico, para o desenvolvimento dos costumes. Porém, num sentido bem mais
amplo, pode-se designar como liturgia qualquer cerimônia, seja de cunho
religioso ou não.
Entretanto, quero aqui estender
minha reflexão sobre liturgia, comentando uma passagem bíblica envolvendo uma
mulher e o homem Jesus de Nazaré. Como o mundo é (era?) dos homens,
compreende-se porque o relato de Lucas 7,36-50, permanece esquecido na mente da
maioria dos cristãos. Nesse texto a “pecadora” (mulher!) entra sem ser
convidada na casa de Simão, o fariseu, onde, sentado à mesa, entre outros
convivas, Jesus comia.
Plastifica-se
então uma feminina liturgia, belíssima, apaixonada, terna e reveladora do
desejo e do prazer da corporeidade, da sensibilidade, do toque. A mulher unge o
homem de Nazaré com perfume, banha-lhe os pés com lágrimas e seca-os, em
seguida, com seus longos e sedosos cabelos, cobrindo-os de beijos.
Carregado
de nuanças sensíveis, sinestésicas, o relato é um convite ao sonho, à
imaginação. A cena, envolvente, apela aos sentidos. A mulher se expondo em seus
mais íntimos sentimentos, entremeados nos olhares, silêncios, toques. Toques de
lágrimas, cabelos, lábios e mãos nos pés de Jesus. O sabor das lágrimas
ardentes na pele dela, na pele dele. Amor, ternura, dor, paixão, sofrimento,
prazer… Humanas emoções. Não há necessidade de palavras. A mulher úmida e seu
odor… Secreções! Cheiro de ungüento do vaso de alabastro… Perfume! E o homem de
Nazaré, pele exalando suor, envolto em manto de algodão e poeira, entrega-se
aos toques e retoques das carícias restauradoras num silêncio eloqüente e
fecundo. Encantamento!
No
entanto, essa liturgia simbólico-profética não veio a se tornar parte do
conhecimento evangélico dos cristãos, mesmo tendo Jesus afirmado que o ato
dessa mulher seria contado em sua memória (Marcos 14,9).
É preciso
salientar o fato de ter sido uma mulher a primeira a ungir Jesus com um
ungüento perfumado, muito raro e caro, celebrando uma liturgia
simbólico-profética. Simbólica, pois ungir
refere-se ao ato simbólico de derramar azeite sobre objetos ou pessoas em sinal
de consagração. Isto é, ungia-se a pessoa a fim de separá-la para uma tarefa
específica. Dessa forma os reis eram ungidos como libertadores para governar o
povo; os sacerdotes eram consagrados para servir a Deus através do sacerdócio;
e os profetas para pregar, ou falar, em nome de Deus. E profética, pois foi uma
antecipação à morte de Jesus, o Messias – termo este que significa o
“Ungido”. Atualmente, a unção foi
substituída pela imposição das mãos, permanecendo apenas a unção dos enfermos
com fins medicamentosos.
O belo, o
sagrado, o amor, a religião… São temas que encantam e elevam espiritualmente o
indivíduo. Essa magnífica cena narrada no evangelho de Lucas nos leva a pensar
que a experiência religiosa exige sensibilidade, inteligência e racionalidade.
Renato Mezan afirma que a inteligência é necessária, tanto para criar um
trabalho de arte, como para apreciá-lo. Da mesma forma que só a faculdade
lógica não basta para explicar qualquer tipo de arte, seja um trecho de música,
um poema ou uma liturgia, também apenas a emoção não basta para fazer surgir
arte; é preciso que ela seja transformada e expressa num meio plástico,
gestual, sonoro ou verbal, para que possa contribuir à gênese de uma obra.
Na língua
portuguesa a palavra liturgia é feminina. E a liturgia tem a ver com o
feminino, na medida em que é encontro, emoção, expressão dos apelos do coração.
Liturgia é como um encontro de
sensibilidades, onde beijos de afeto e demonstrações de ternura aquecem o
coração e arrepiam a pele. Prima pela sutileza das ações, pela delicadeza dos
gestos, pela intimidade afetiva. Silêncio, sons, gestos… a liturgia é feita de
acolhimento, de aconchego, como útero pulsante que acolhe e gera vida. É
momento fecundo, onde corporeidade/sexualidade, feminina/masculino,
emoção/razão, silêncio/sons se enlaçam e entrelaçam num encantado voluteio
sagrado/profano.
Liturgia
é arte, beleza, música, poesia, sabor… É vida! Resgate do divino no cotidiano,
universo de significações, a liturgia pode nos levar a uma experiência de tipo
fusional, o sentimento oceânico, o mergulhar na grande nebulosa maternal
descrito por Freud. Momento sagrado, liturgia tem a ver com fecundidade,
maternidade, transcendência, eternidade.
É preciso, pois, resgatar essa
liturgia-poesia-sabor em nossa arte de viver, acolhendo o novo, o diferente, sem cisões, exclusões ou
preconceitos. E recuperar a noção de unicidade, pois somos parte da Natureza e
a Natureza é parte de nós. Templos do divino, do sagrado, nossa humana liturgia
precisa abrir-se para o universo do qual somos parte!
Foto: Aya Sophia/Istambul
LEITURAS SUGERIDAS
CHAUÍ, M. Paixão, ação e
liberdade em Espinosa. Publicado na Folha de S. Paulo, Caderno Mais! 22 de
agosto de 2000.
DELUMEAU, J. História do
medo no Ocidente 1300-1800. Companhia das Letras: São Paulo. 1990.
Bíblia de Jerusalém.
Edições Paulinas: São Paulo, 1895.
O feminino, a mulher e seu corpo desde tempos imemoriais tem sido fonte de tabus, ritos e terrores. O medo de seu mistério, fecundidade e maternidade levou o homem a acusá-la de ser a causadora de todos os males da humanidade, trazendo o pecado, a infelicidade e a morte sobre a terra. Seu misterioso ciclo menstrual, o líquido amniótico, cheia de odores e de secreções… a mulher passou a ser considerada impura, manchada, mal-dita!
O sangue é universalmente considerado o veículo da vida. Tanto é que biblicamente se diz que sangue é vida. O sangue, misturado à água da chaga de Cristo, é a bebida da imortalidade. Ele corresponde ainda ao calor vital e corporal, além de ser o veículo das paixões. De acordo com muitos mitos antigos é o sangue que, misturado à terra, dá origem aos seres, às plantas e até mesmo aos metais. O sangue derramado em sacrifício proporcionava, para os povos antigos, a fertilidade, a abundância e a felicidade.
Portanto, a simbologia do sangue é riquíssima e está ligada à vida, à fertilidade, à imortalidade. E, da mesma forma que a simbologia do sangue remonta às civilizações mais antigas, também a menstruação tem sido objeto de inúmeros significados simbólicos nas mais diversas culturas.
Os relatos do Antigo Testamento falam da “impureza” da mulher menstruada. E na Antiguidade os egipcios acreditavam que, quando as esposas ficavam longo tempo afastadas de seus maridos, não mais menstruavam. Porém, o que não se pode negar é que a fecundidade, a maternidade, os mistérios do nascimento e da menstruação são manifestações naturais de poder. E a mulher e seu misterioso ciclo menstrual, intrerrompido durante a gravidez para trazer à vida um novo ser, deixou marcas profundas na psique humana.
Os sentimentos mais precoces de inveja e de terror continuam ligados à sexualidade feminina. Pois, em seu corpo reside o mistério da multiplicação da vida e, através de seu seio se concretiza o mistério da multiplicação do alimento. Assim, ao longo dos tempos, a Mulher recebeu vários nomes: Lilith, a lua negra, transgressora; Eva, responsável pela queda do homem e pela expulsão do Paraíso; Pandora, portadora da caixa em que se ocultavam todos os males que assolam a humanidade, além da esperança; Medeia, devoradora dos próprios filhos; Medusa, Hydra, Fênix… Morgana, Circe, Lorelei… Yara, Yemanjá… e tantos outros.
E o mais trágico disso tudo é que esse medo do feminino, da mulher e de seus mistérios, fez com que elas fossem responsabilizadas por todo o mal que afeta a humanidade, levando-as, inclusive, às fogueiras da inquisição. A verdade é que a mulher, fonte da vida e da fertilidade sagrada mas, também, senhora dos mistérios ligada ao lado obscuro da vida, apavora o homem fazendo-o sentir-se ameaçado de submergir, o que é o oposto da fecundidade. Submergir quer dizer afundar, desaparecer… E fecundidade tem a ver com a capacidade de criar vida.
E a vida, esse poder miraculoso de renascimento, multiplicação e abundância, quando em mãos femininas precisava ser cerceada e controlada pelo terror que inspirava, pelo poder que continha.
E a religião acabou sendo uma das formas utilizadas para controlar o feminino, a mulher e seu poder de fecundidade. Dessa forma, Vida e Morte – Morte e Vida, o ciclo veraz e voraz que todos nós temos que enfrentar, passou a ser dicotomizado, invertendo-se os papéis. A mulher, que por sua natureza tinha o poder de dar a vida, ficou ligada à morte. E o homem “apoderou-se” do poder de criar a vida.
O relato criacionista do Antigo Testamento, alicerçado na tradição patriarcal, disseminou no imaginário coletivo que a mulher foi formada a partir da costela de Adão, tendo sido criada para servi-lo. Passou-se a acreditar, inclusive, que o princípio ativo no processo de geração de uma nova vida dependia, exclusivamente, do sêmen masculino. O ventre feminino nada mais era do que um espaço vazio, preparado para acolher o sêmen masculino. Este, sozinho, “fabricava” a nova vida a surgir.
Acredito que esse medo atávico, arcaico, ancestral, explica a dicotomia veiculada durante séculos em nossa cultura ocidental de origem judaico-cristã. Para se contrapor ao terror de submergir no feminino, tentou-se fazer a separação do inseparável. Defendeu-se a racionalidade sem corporeidade, sem emoção, e a materialidade sem espiritualidade, numa tentativa de se valorizar uma humanidade desprovida de suas humanas dimensões.
Cindindo a Mulher, ela ficou sendo a Eva sedutora e fatal, personificação do mal. E Maria casta, virgem e dessexualizada, a personificação do bem.
É a imagem do feminino dicotomizado, cindido, idealizado. Pois o ideal pode-se abstrair e, assim – pura ilusão – pode-se controlar, submeter, dominar. O sentimento e a emoção, a sedução e a paixão, a corporeidade e a sexualidade, o toque e o prazer… Tudo virou pecado, pecadinhos ou pecadões, numa hierarquização funesta, estigmatizante e preconceituosa. Entrelaçados nos pecadões encontravam-se corporeidade, sexualidade, feminino, mulher! Personificando o encanto e a sedução, emoções à flor da pele, corpo, mulher e sexualidade tornaram-se o símbolo maior do pecado e da perdição desde os tempos mais imemoriais.
Spinoza fez uma análise histórica da Biblía, colocando-a como fruto de seu tempo. Criticou os dogmas rígidos e os rituais sem sentido nem poder, bem como o luxo e a ostentação da Igreja. Contra a visão antropocêntrica da divindade, para ele, Deus tem conhecimento das coisas que criou. Dessa forma, conhece os pecados, porém, estes só existem na mente humana. E, para esse pensador somos modos finitos de Deus, partes da natureza infinita de Deus...
O pensamento ocidental foi por muito tempo oprimido pelo peso da normatividade repressiva da moral e da transcendência teológico-religiosa apoiada na idéia de uma culpa originária. Ambas consideram o corpo a causa das paixões da alma e as julgam como vícios em que caímos por nossa culpa.
Contrariando essa tradição, o filósofo Espinosa defendia o livre exercício do corpo e da alma, libertando-o. Para ele o ser humano é parte imanente da Natureza e possui a peculiaridade de tomar parte na atividade da própria Natureza.Rompendo com a dicotomia entre corpo e alma, consideradas como instâncias separadas e hierarquizadas, Spinosa afirmou:
“Nem o corpo pode determinar o espírito a pensar, nem o espírito pode determinar o corpo ao movimento, ao repouso ou a qualquer outra coisa. Entendo por paixões tudo o que faz variar os juízos e de que se seguem sentimento e prazer.”
O corpo, para Espinosa, é uma unidade estruturada, formando um conjunto equilibrado de ações internas, interligadas por órgãos. Somos indivíduos e, sobretudo, indivíduos dinâmicos, pois nosso corpo é relacional, constituído por relações internas entre órgãos e relações externas com outros corpos.
E a alma? Alma é uma força pensante, e pensar é conhecer algo, afirmando ou negando sua idéia. Expressão finita de um força infinita, a mente humana é uma idéia de seu corpo e idéia dessa idéia. Ou, dito de outra forma, idéia de si mesma como idéia de seu corpo. Por isso, um pensamento é um ato de pensar que se realiza como imaginação, desejo e reflexão.
Somos a unidade de um complexo corporal, formados pelos milhares de corpos que constituem nosso corpo, e de um complexo psíquico que são as inumeráveis idéias que constituem nossa mente (alma). A ligação entre o corpo e a alma não é algo que lhes acontece, mas é o que ambos são, quando são corpo e alma humanos. A alma é consciência da vida de seu corpo e consciência de ser consciente disso.
Assim sendo, não existe o problema metafísico da união entre a alma e o corpo, pois é da essência da alma como atividade pensante, consciente, estar ligada ao seu objeto de pensamento, o corpo. A alma começa e vive num conhecimento confuso de seu corpo e de si. Tem idéias imaginativas e vive imaginariamente. Para Espinosa imaginação significa percepção e imaginar é perceber sensorialmente as coisas e não inventar fantasias, como hoje se pensa. É uma atividade do corpo, não da alma.
Por outro lado, afetando outros corpos e sendo por eles afetado de muitas maneiras, o corpo cria imagens de si a partir do modo como é afetado pelos demais corpos. Nascida de encontros corporais, a imagem institui o campo da experiência vivida como relação imediata e abstrata com o mundo. E tanto o corpo quanto a alma têm como principal interesse a existência e tudo quanto contribua para mantê-la. Referindo-se a esse desejo com o termo conatus, que significa "esforço para se conservar na existência", Spinosa diz que, no corpo, o conatus se chama apetite e, na alma, desejo. E o desejo é a essência do ser humano.
Dizer então que somos apetite corporal e desejo psíquico é dizer que as afecções do corpo são afetos da alma. Isto é, as afecções do corpo são imagens que, na alma, se realizam como idéias afetivas ou sentimentos que são considerados paixões. E esses afetos (paixões) não são vícios, pecados, desordens e nem doenças. São efeitos necessários, pelo fato de sermos uma parte finita da Natureza e estarmos sujeitos a outros efeitos, mais numerosos, e que exercem poder sobre nós.
Portanto, a relação originária da alma com o corpo e de ambos com o mundo é a relação afetiva. Nossas idéias, sejam verdadeiras ou inadequadas, são afetos que, exprimindo nosso conatus, obedecem à lei natural que rege o esforço de preservação na existência. Somos causa adequada de nossos afetos quando são causados em nós por nossa própria potência interna e, então, somos livres e ativos. E somos causa inadequada de nossos afetos quando são causados em nós pelo poder de causas externas e, então, somos passivos e passionais.
No entanto, desde tempos ancestrais essa cisão entre corpo e alma, entre razão (ação) e emoção (paixão) vêm acompanhando e influenciando o desenvolvimento humano. E, pior! As paixões vistas como pecados, vícios e doenças foram atribuídas ao feminino, à Mulher. Por que será?